A culpa morreu nos cabos
Quase um ano depois da tragédia do Ascensor da Glória, em Lisboa, há uma pergunta que continua sem uma resposta verdadeiramente satisfatória: quem é responsável? Dezasseis pessoas morreram e outras ficaram feridas num acidente que abalou o país e que, durante vários dias, ocupou jornais, televisões e discursos políticos. Houve consternação, promessas de transparência, garantias de que tudo seria investigado e de que as responsabilidades seriam apuradas. Passado um ano, conhecemos cada vez mais detalhes sobre o que aconteceu, mas continuamos a conhecer muito pouco sobre quem responde pelo que aconteceu.
Sabemos que houve uma falha no cabo. Sabemos que foram identificadas desconformidades no processo de aquisição, aceitação e aplicação desse cabo. Sabemos que o material utilizado não estava certificado para transporte de pessoas. Sabemos que a investigação preliminar encontrou problemas relacionados com procedimentos de manutenção e com os respetivos registos. Sabemos também que existem questões técnicas importantes relativamente à capacidade do sistema para responder a uma situação de rutura. Tudo isto exige prudência, porque cabe às entidades competentes estabelecer a relação entre cada uma destas falhas e o acidente e, naturalmente, à Justiça determinar se existem responsabilidades criminais. Mas uma coisa é respeitar o tempo da investigação e outra, muito diferente, é aceitar que a responsabilidade se vá dissolvendo à medida que os meses passam.
Talvez seja esse um dos maiores problemas do nosso país. Quando acontece uma tragédia, indignamo-nos intensamente durante alguns dias. Exigimos respostas, pedimos demissões, procuramos culpados e prometemos que nunca mais poderá voltar a acontecer. Depois........
