A cultura dos mínimos
A escola portuguesa vive há demasiado tempo presa a uma lógica perversa: para evitar conflitos e manter uma paz artificial, trabalha para os mínimos. Quando a escola se organiza para os mínimos, falha a sua missão essencial, ensinar, e alimenta a indisciplina, o abandono e a exclusão que diz querer combater.
A indisciplina não nasce do excesso de exigência; nasce do vazio. Quando um aluno percebe que pode boicotar uma aula sem consequências, que basta resistir para que a fasquia baixe ou que lhe será criado um “programa próprio” sem rigor, a escola perde autoridade pedagógica. Assim se instala a cultura dos mínimos: uma escola que ensina pouco para não incomodar ninguém.
Mas o ensino não pode ser desenhado para os que não querem aprender. Deve ser pensado para os que querem, e para os que podem querer se forem acompanhados com inteligência. É aqui que se torna essencial permitir que os alunos escolham algumas disciplinas e não escolham outras, sobretudo aqueles que revelam resistência persistente ao modelo tradicional. Não para os afastar, mas para os envolver num percurso que faça sentido.
O 8.º ano deve ser um momento de decisão real. Não uma formalidade, mas um ponto de viragem em que cada aluno, com apoio e informação, escolhe um caminho coerente com o que sabe, com o que faz e com o que está disposto a assumir. A escolha não pode ser simbólica; tem de ter consequências formativas. A liberdade de escolher disciplinas não é a liberdade de rejeitar o trabalho escolar.
E há um princípio que não pode ser esquecido: os alunos estão na escola porque escolheram estar. A escolaridade obrigatória não elimina a escolha; apenas a desloca. Estar na escola implica responsabilidade, regras, esforço e compromisso. Por isso, não faz sentido permitir que um aluno com negativa a Matemática escolha um percurso secundário que exige precisamente essa competência. Isto não é exclusão; é honestidade pedagógica. Obrigar um aluno a seguir um caminho para o qual não tem bases é condená‑lo ao fracasso e ao abandono. Inclusão não é fingir que todos podem tudo; é garantir percursos onde cada um pode realmente crescer.
A personalização curricular deve ser exigente. Um aluno que não quer determinadas áreas não precisa de ser empurrado até à rutura; precisa de um percurso estruturado, rigoroso e orientado para competências reais, com margem de escolha que devolva sentido e responsabilidade. Personalizar não é baixar a fasquia; é adaptar com rigor.
E este debate não é teórico: tem consequências diretas na vida dos jovens. Em 2023, Portugal tinha cerca de 140 mil jovens que não estudavam nem trabalhavam , 8,9% dos jovens até aos 29 anos, o valor mais baixo em 14 anos, mas ainda assim preocupante. A maioria situa‑se entre os 25 e os 29 anos, jovens que saíram da escola sem bases sólidas. E, mesmo assim, há potencial: no 1.º trimestre de 2025, 23,8% destes jovens transitaram para o emprego e 12,6% regressaram à educação ou formação. Estes números mostram que há margem para recuperar trajetórias, se a escola devolver sentido, exigência e responsabilidade desde cedo.
O modelo atual descansa pais e governantes, mas não descansa os alunos. A indisciplina é, muitas vezes, o sinal de que os jovens querem mudança, querem ser levados a sério, querem uma escola que lhes peça algo que valha a pena. Uma escola que trabalha para os mínimos não protege ninguém. Limita, empobrece e exclui.
Se queremos uma escola que inclua, retenha e transforme, temos de abandonar a cultura dos mínimos. É tempo de exigir mais, para todos.
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