Viver em cada dia o tempo todo
Nunca vivemos no dia em que vivemos. Vivemos amanhã. E nos dias a seguir. Vivemos presos no ontem. Ou emaranhados na memória. Vivemos no mais longe do longe; no futuro. Ou encurralados no passado. Mas nunca vivemos no dia em que vivemos. A não ser quando, misturando mais os dias, haja quem nos arrebata. Levando-nos a viver em cada dia o tempo todo.
A vida que temos e as percepções que fazemos dela nem sempre coincidem com o seu viver. Para quem é inseguro, sofre-se, antes do tempo, por se imaginar a dor que sobressaia sobre o viver. Para quem sonha e acredita, vive-se, apaixonadamente; antes, mesmo, de se viver. Para quem vive depressa, a vida esboroa-se e esmorece antes que se viva. Para quem a desenha e a projecta — e, meticulosamente, a pretende controlar — a vida pode esperar.
Seja qual for a sua diversidade, a vida constrange-se pelo tempo em que se vive.
No nosso tempo — talvez porque se eleja a eficácia, e a ciência e a técnica; e a unicidade daquilo que se pensa; e o socialmente correcto (por mais que soe a falso); e o engano e a falha parecem ter-se afastado do património de quem aprende — todos os erros são costurados com bobines infindáveis de culpa.
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Hoje, por exemplo, culpa-se a História por aquilo que ela fez mal, aos nossos olhos de hoje. Como se a culpa inquinasse o orgulho. E nos levasse a fugir dele. E a vergonha pelos actos dos nossos antepassados adulterasse o engenho das suas conquistas. Quando da história emerge, sobretudo, a culpa, a identidade assenta no remorso. E o futuro torna-se uma ousadia interdita.
Mas a forma........
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