As métricas do amor
– “Uma pessoa aponta ao amor e acerta na solidão”. Acha que, no amor, será sempre assim?
Acho que acaba por ser assim. Muitas vezes. É verdade que sim. Talvez porque as métricas do amor, aquelas que aprendemos e com que crescemos, passem muito mais pelas formas como fomos amados. Pelo jeito com que fomos lidos, por dentro. Ternamente desmascarados. Ou ternamente revelados, trazidos à luz ou, mesmo, reinventados (talvez mais assim). Por uma pessoa que parece saber mais de nós do que nós próprios. Ou que, simplesmente, tem a curiosidade para olhar, por um bocadinho mais que seja, para dentro de nós. Esmiuçando os nossos silêncios. Insistindo em ir dois passos adiante das nossas hesitações. Ou, como quem atravessa uma parede, ignorando as barreiras de cada um dos nossos entaramelanços. Pondo em palavras tudo aquilo com que o coração se assusta e nos engasga.
As métricas do amor estão muito mais ancoradas na forma como nos amaram que no modo como fomos amando. A forma como, no amor, vamos a jogo é muito infantil! Ficamos à espera que nos amem. Que nos decifrem. Que traduzam em gestos ou em palavras a paleta quase interminável dos nossos silêncios. Como se quem nos ama fosse, à imagem do amor de mãe, divino, na forma como nos traz à luz. E infinitamente bondoso, no modo como nos sente, nos imagina e nos perscruta. E aceita e acolhe as nossas arestas. E o que temos de mais áspero. Que, porque nos mete medo, acaba por ser aquilo com que se amedronta.
As métricas infantis do amor pressupõem receber antes de dar. E, apesar na nossa distracção. acreditar na devoção do outro a nós. No seu estar incansável. E no seu amor incondicional. Como se, o amor adulto fosse duma quietude atenta, e pouco mais. E nada nele fosse frágil. Precisasse de gestos atenciosos, amáveis e delicados. Ou, sobretudo, fosse à condição.
As métricas do amor infantil levam-nos, ainda mais longe. À expectativa de crer que quem nos ama nos resgata das páginas em branco, dos períodos opacos, das dores, das feridas e dos traumatismos do nosso crescimento para que, depois, tudo isso ser colocado à sua guarda. Para que nos resguarde. Nos acalente. Nos remexa e nos revolva. Como se o amor fosse de um só único nascer.
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É por isso que, seja qual for o formato do amor, esperamos que mantenha sempre uma aragem do amor infantil. A ponto de tão depressa ele ser único como que nos torne únicos. E por mais que “aquela”pessoa tenha uma história de amores até chegar a nós, é por isso que,........
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