Angola tem a terra, o Brasil tem a chave, a língua é a mesma
Há uma frase que um ministro angolano disse esta semana, e que o Observador destacou, que merece ficar. Cansado de esperar por investidores brasileiros que anunciam e não avançam, Isaac dos Anjos, ministro da Agricultura de Angola, declarou que já não está disposto a implorar, que se não quiserem vir, não precisam de vir. É a frase de um homem orgulhoso e impaciente, e por trás dela está uma das maiores oportunidades desperdiçadas do mundo lusófono, uma oportunidade que devia interessar tanto ao Brasil como a Portugal.
Comecemos pelos números, porque são o meu ofício e porque são impressionantes. Angola dispõe, segundo o seu próprio governo, de trinta e seis milhões de hectares de terra arável e cerca de cento e cinquenta milhões de hectares agricultáveis. E quanto disso está a ser trabalhado? As famílias cultivam cerca de seis milhões de hectares, e o sector empresarial não chega sequer a um milhão. Ou seja, um país do tamanho de Angola usa uma fração minúscula da terra fértil que tem, e importa boa parte dos alimentos que consome. Tem o celeiro cheio de terra e vai ao vizinho comprar o pão. E não é um pormenor, é o cerne do problema, porque um país que depende de importar comida está sempre a um choque cambial ou a uma crise mundial de distância da fome.
Foi por isso que Angola pôs à disposição de empresários brasileiros oitocentos mil hectares, com uma engenharia financeira que envolve o BNDES brasileiro e vários bancos angolanos, para instalar polos agrícolas. E a pergunta que se impõe é dupla, porque é que Angola escolheu precisamente o Brasil, e porque é que, mesmo assim, a coisa não anda?
À primeira pergunta, a resposta é uma das histórias mais notáveis do século, e poucos europeus a conhecem. Nos anos setenta, o Brasil era importador de comida. O seu cerrado, aquela vasta savana do centro do país, era considerado imprestável para a agricultura, solo ácido, pobre, tido como condenado à pastagem rala. Então o Brasil fez uma coisa que a Europa raramente faz, apostou na ciência a longo prazo. Através da Embrapa, a sua empresa pública de pesquisa agrícola, passou décadas a corrigir aqueles solos, a tropicalizar plantas, a adaptar sementes ao calor. E transformou o cerrado condenado no maior celeiro do país, responsável por sessenta por........
