A China já vende carros na Europa, com os emblemas europeus
Há símbolos que valem mais do que mil relatórios. O automóvel é um deles. Foi, durante um século, o coração da indústria europeia, o setor que sustentou salários altos, sindicatos fortes, cidades inteiras. A Alemanha, a França, a Itália construíram classe média à volta de linhas de montagem. Se há uma coroa na indústria do velho continente, o automóvel é a sua joia mais brilhante. E é essa joia que está, neste momento, a mudar de mãos.
Comecemos pela notícia que motiva estas linhas. Em 2025, os lucros do Grupo Volkswagen caíram 44%, para 6,9 mil milhões de euros. A empresa anunciou o corte de até cem mil postos de trabalho e o encerramento de produção em quatro fábricas alemãs. A imprensa alemã, pouco dada a dramatismos, chama-lhe a pior crise da Volkswagen desde a Segunda Guerra Mundial. E dois economistas de peso, Niall Ferguson e Moritz Schularick, disseram ao Süddeutsche Zeitung o que há pouco tempo seria impensável, a Volkswagen pode acabar comprada por uma fabricante chinesa, e citaram um nome, a BYD.
Uma empresa que há vinte anos fabricava baterias, apontada como possível compradora do símbolo industrial alemão. Guardem esta imagem, porque ela é o presente, não o futuro.
Como é que se chega aqui? A explicação oficial é conhecida e cómoda, a transição para o carro elétrico foi mal feita, e a China joga sujo com subsídios. Há verdade nisso, mas é uma verdade incompleta, e as verdades incompletas são as mais perigosas, porque consolam sem explicar. A pergunta de contabilista, a que não descansa, é outra. Porque é que a China consegue fabricar o mesmo carro mais barato?
Os carros elétricos chineses custam, na Europa, menos 21% do que os equivalentes europeus, e mantêm essa vantagem mesmo depois de a União ter erguido tarifas para os travar. Repare-se no que isto significa. Puseram-se barreiras alfandegárias, e o carro chinês continua a chegar mais barato ao consumidor. Quando uma tarifa não fecha o fosso de preço, o problema não é a tarifa ser pequena, é o fosso ser enorme. E um fosso enorme não se explica por um truque, explica-se por uma diferença estrutural de competitividade. Energia mais cara na Europa, que já vimos custar........
