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Um copo de vinho faz realmente assim tão mal?

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02.08.2026

Tenho a maior consideração pessoal e profissional pelo Dr. Ricardo Mexia. A forma serena e rigorosa como nos guiou durante os momentos mais incertos da pandemia ficou gravada na memória de todos nós. Foi um verdadeiro ponto de referência quando o país mais precisava de clareza.

É precisamente pelo respeito que tenho pela sua autoridade que não posso deixar de refletir sobre uma recente intervenção sua num podcast. A ideia central que ficou no ar foi a de que “qualquer consumo de álcool é nocivo”, uma afirmação que aparecia ilustrada pela imagem de um copo de vinho (da qual, estou certo, o Dr. Mexia não terá culpa alguma).

Se ao Dr. Mexia cabe zelar pela saúde pública na sua escala mais ampla — e faz isso muito bem —, a mim, como profissional ligado à economia do vinho, cabe trazer a esta conversa a complexidade económica, científica e cultural que o assunto exige. Até porque a ciência sobre o consumo moderado de vinho está longe de ser um assunto fechado. E confesso que tenciono discutir tudo isto com ele pessoalmente, ao sabor de um bom vinho português… e à mesa, com certeza.

1. Vinho não é a mesma coisa que um destilado

Tratar tudo o que tem álcool como se fosse a mesma substância é um erro biológico. O vinho é fruto de uma fermentação natural. Na sua composição encontramos água, compostos orgânicos, flavonoides e antioxidantes como o resveratrol.

Esta matriz natural muda completamente a forma como o corpo processa o álcool. A absorção no estômago e no fígado é muito mais lenta e gradual do que a de um whisky, de um gin ou de uma vodka, onde o álcool está concentrado e isolado. Além disso, o vinho bebe-se quase sempre à refeição, o que reduz ainda mais os picos de álcool no sangue.

Comparar um copo de vinho à refeição com bebidas destiladas é o mesmo que comparar fruta inteira com açúcar refinado. Dizer “zero álcool” sem olhar para o contexto nem para o tipo de bebida é ignorar esta diferença fundamental.

2. O que a ciência realmente revela (e o que as manchetes ocultam)

A narrativa do alarme assenta frequentemente no estudo publicado em 2018 pela revista The Lancet, que popularizou a frase “Nenhuma quantidade de álcool é segura”. Mas quando olhamos para os números reais do próprio estudo, a história é outra.

Em 100 mil pessoas que bebiam um copo de vinho por dia, 918 desenvolveram algum problema de saúde associado ao álcool ao longo de um ano. No grupo de 100 mil pessoas que não bebiam nada, 914 desenvolveram exatamente os mesmos problemas.

As doenças analisadas têm causas multifatoriais — do sedentarismo à genética —, e o próprio estudo procurava o “risco zero” numérico, o mesmo que se aplicaria a banir a condução automóvel para zerar a sinistralidade rodoviária. Acresce que o grupo de controlo de “não-bebedores” admitia, curiosamente, consumos até 0,8 bebidas/dia.

Por outro lado, a evidência recente aponta noutra direção. Um grande estudo de março de 2026 que acompanhou mais de 340 mil adultos durante 13 anos, mostrou que quem bebe vinho com moderação tem um risco 21% menor de morrer de doenças cardiovasculares. Este benefício não apareceu nos consumidores de cerveja........

© Observador