Vitória, rendição e outras lições iranianas
O Irão e a guerra em curso continuam a dar-nos lições. Uma vez que estamos a começar a pagar um preço elevado por elas mais vale aproveitar. Não o digo por simpatia com o regime dos aiatolas, como qualquer leitor com o mínimo de boa fé percebe do que tenho dito e escrito por aqui ao longo dos anos. Mas, como diria o padre António Vieira, até com o diabo se aprende.
Subestimar o inimigo é um erro crasso
Num conflito armado acreditar na própria propaganda é mau, ainda mais perigoso é desconhecer ou subestimar o inimigo. É um erro crasso, uma curiosa expressão que tem origem, precisamente, na história dos iranianos ou persas e das suas múltiplas guerras com os romanos. Marco Crasso, um rival de Júlio César, pagou com a vida ter subestimado um desses sucessivos impérios persas, o dos Partos, numa enorme derrota, em 53 a.C., na batalha de Carrhae, hoje na fronteira entre a Turquia e a Síria.
Em geoestratégia estamos a ter mais uma lição prática sobre os custos de um mundo mais conflituoso bem como da importância perene dos pontos de estrangulamento como o estreito de Ormuz. É verdade que, como diz Trump, a superioridade militar e tecnológica norte-americana é esmagadora. Nunca vimos tantos alvos a serem atacados em tão pouco tempo, provavelmente, com um papel ativo da inteligência artificial. Mas os mísseis não são mais inteligentes que a estratégia que estiver por detrás do seu uso. E o Irão não precisa de ter os recursos militares dos EUA para continuar a combater. Só precisa de ter mais vontade de continuar a resistir e uma maior tolerância às baixas e aos custos da guerra. Este tipo de conflitos assimétricos foram o meu tema de doutoramento e pude demonstrar que são vários exemplos, desde 1945, do lado mais fraco atingir os seus objetivos estratégicos, forçando a retirada da potência mais forte. Para isso, o lado mais fraco precisa de combater de forma não-convencional, apostar em ataques surpresa e em niveladores de poder, como minas ou drones, e em procurar aliados que alimentem a sua resistência.
O Irão pode ter visto ir ao fundo a sua marinha convencional. Mas basta ter suficientes lanchas com explosivos, drones aéreos e navais, minissubmarinos e minas – com um custo infinitamente inferior ao dos porta-aviões norte-americanos – para criar uma perceção de risco no Estreito de Ormuz que leva a maioria da........
