Trump não sabe o que fazer e culpa a Europa
Esta campanha no Irão está a decorrer, no essencial, como previ, apesar dos muitos imprevistos que sempre existem numa guerra, como o abate de um F-15 norte-americano deixou claro. Mas é cada vez mais evidente um mau planeamento estratégico dos EUA, com objetivos erráticos e em muitos casos irrealistas, para os meios empenhados e os riscos que Trump está disposto a correr. Isso deixou Trump num beco geoestratégico. Um beco definido por padrões históricos conhecidos, que ignorou. Por exemplo, não temos precedente para um regime ser derrubado apenas por meios aéreos. Mais, temos muitos exemplos de que as guerras assimétricas não garantem vitórias fáceis e rápidas ao lado mais forte, veja-se o Vietname. É assim sobretudo se o lado mais fraco tiver aliados, tirar partido da geografia e apostar em táticas irregulares. É o caso desta guerrilha naval no estreito de Ormuz, que não exige uma grande marinha convencional para ser eficaz. Confirma-se também a importância vital dos pontos de estrangulamento da geopolítica global, como os estreitos de Ormuz ou de Aden, este último é uma artéria vital na ligação comercial entre a Europa e a Ásia que os Houthis, alinhados com o Irão, ameaçam. É um bom exemplo de que as coisas se podem complicar ainda mais, como será também o caso se os iranianos conseguirem fazer refém de um piloto americano.
Um preço elevado, um modesto obrigado
É evidente a superioridade tecnológica e tática dos militares dos EUA, como o comprovam milhares de alvos atingidos. Mas superioridade não é invulnerabilidade, nem garantia de sucesso político. Qual é o grande ganho político para os EUA deste conflito? Ter um Khamenei novo, em vez de um Khamenei velho? Não me parece grande ganho, até ver, sobretudo quando o preço é o Golfo a ferro e fogo, o estreito de Ormuz ameaçado, o mercado global dos hidrocarbonetos inflacionado, e, com ele múltiplos outros setores dos transportes aos micro-chips e à alimentação.
Portugal – diria que mais pelo passado do que pelo presente das relações com os EUA – até tem permitido um uso minimamente condicionado das Lajes, mais generoso do que outros aliados europeus. Isso não evitou os ataques indiscriminados de Trump à Europa, e ameaças à NATO. Pelo menos veio, finalmente, um agradecimento público a Portugal através de Marco Rubio, a voz mais razoável desta Administração. Poderá ser um retorno modesto, mas é melhor do que nada. Defendi que seria o mínimo, e é positivo que tenha acontecido num contexto em que é muito difícil gerir bem as relações com os EUA.
Acreditar na própria propaganda
Trump prefere ignorar a história, e acreditar na sua própria propaganda sobre a omnipotência dos EUA. Nisso está acompanhado por muitos que preferem ver confirmados os seus preconceitos a confrontar-se com factos inconvenientes. Mas só Trump tem o poder acumulado dos EUA, obrigando aqueles que, como eu, têm a obrigação de analisar a política internacional, a acompanhar com atenção as suas palavras, e, sobretudo, as suas ações.
Trump, nunca é demais dizê-lo, claramente subestimou o inimigo. Por isso, EUA não têm os meios militares que precisam na região – daí o envio de reforços significativos nas últimas semanas. Trump também não tem mostrado, até ver, a coragem política para assumir os riscos e as baixas de uma operação militar muito complexa e custosa para devolver segurança à navegação no Golfo e no estreito de Ormuz.
Um Irão livre seria uma boa notícia para os iranianos, para o Médio Oriente, para o Mundo. Certamente os iranianos mereciam melhor que o regime atual. Mas, importa recordar que a história também mostra que derrubar uma ditadura não é o mesmo que construir uma democracia. Sobretudo, a questão crucial na política internacional não é saber se algo é desejável, mas sim, saber se é fazível, a que preço, e quem está disposto a pagar esse preço. Trump não parece estar.
Qual é a solução de Trump para o buraco em que se meteu? Declarar vitória independentemente do que realmente conseguiu, e culpar os aliados pelos problemas que criou. Que Trump está desejoso de declarar vitória e seguir em frente fica claro na sua insistência de que já ganhou e, até, que houve uma mudança de regime no Irão! Trump elogia agora o presidente iraniano como bem melhor do que os antecessores. O além de ser questionável, é, sobretudo, irrelevante, porque no regime teocrático iraniano todos os presidente têm sido irrelevantes. Sim, o Presidente Pezeshkian até veio pedir desculpa aos países vizinhos pelos ataques iranianos. Mas demonstrando que o regime teocrático e autoritário iraniano não mudou, logo a seguir foi desautorizado pelo Guia Supremo – ou por quem fala por ele. A Guarda Revolucionária, os pretorianos do regime, continuaram os ataques. Pior, Teerão declarou a intenção de passar a cobrar, ilegalmente, portagens num estreito internacional.
Pode ser que elementos mais moderados ou pelo menos mais pragmáticos prevaleçam no regime iraniano? Pode surgir uma oposição armada ou dissidentes dentro do regime? Pode ser, mas para já não vejo sinais disso. Como já aqui escrevi, até considero o cenário mais racional para os EUA, e também para o Irão, um cessar-fogo que permita a Trump focar-se nas eleições intercalares e aos novos líderes iranianos consolidaram o seu poder. Mas é impossível dar isso por certo. E, se acontecer, nas circunstâncias atuais, significará que o regime iraniano resistiu, e poderá voltar a reprimir em paz a sua população, tentar recuperar a influência regional, e até tentar reconstruir o programa nuclear.
Com Trump qualquer problema é sempre culpa dos outros. Na economia e na política interna continua a culpar os antecessores, em particular Joe Biden. Na política externa e no caso desta guerra, tenta agora culpar os aliados europeus. Este é o mesmo Trump que ameaçou a Dinamarca, passou anos a acusar os aliados europeus de serem militarmente impotentes, e, recentemente, insultou os soldados europeus que combateram e morreram no Afeganistão para honrar o compromisso do artigo 5. Convém lembrar que, ao contrário do que Trump diz, a única vez que o artigo 5 foi evocado na NATO foi para defender não a Europa, mas os EUA, depois dos ataques do 11 de setembro contra Nova Iorque e Washington D.C., comandados a partir do santuário afegão da al-Qaida. Agora Trump quer que os países europeus da NATO assumam em Ormuz uma missão naval de alto risco que os próprios norte-americanos, até ver, se recusam levar a cabo.
Tudo isto é tanto mais grotesco quanto há indicadores credíveis de apoio russo ao Irão, sobretudo no campo das informações para aquisição de alvos. Ataques a AWACS em pistas remotas na Arábia Saudita ou à base de Diego Garcia, menos mísseis iranianos mas mais certeiros, parecem difíceis de explicar sem apoio russo. No entanto, Putin continua a merecer a compreensão de Trump.
A NATO não obriga a ajudar
O tratado de Washington que criou a NATO, em abril de 1949, no seu famoso artigo 5 (e no artigo 6, que o complementa) é taxativo: a obrigação de defesa coletiva só se aplica a “ataques armados” na Europa e na América do Norte, e a navios dos aliados nos mares adjacentes, Atlântico e Mediterrâneo, tudo a norte do Trópico de Câncer. Esta limitação geográfica foi uma exigência dos EUA, que não queriam ver-se envolvidos em guerras europeias que não lhes interessavam. Países como Portugal e a França resistiram, mas em vão. O máximo que Paris conseguiu foi uma exceção, entretanto caducada, para a Argélia (que até à independência, em 1962, era legalmente parte da metrópole francesa). Tal como nesta guerra, houve dezenas de conflitos armados e intervenções por um membro da NATO que não envolveram os demais. Foi assim, por exemplo, na guerra norte-americana no Vietname, muito criticada na Europa. Foi assim nas guerras portuguesas em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique. Nesse caso os EUA até impuseram um embargo à venda de armamento a Portugal para uso em teatros africanos.
Noutros conflitos, como a guerra das Falklands/Malvinas, alguns países aliados – dos EUA a Portugal – deram apoio indireto, nesse caso à Grã-Bretanha, mas sem enviarem navios ou tropas. As bases dos EUA na Europa também não podem, por regra, ser usadas fora do âmbito da NATO, sem autorização dos países respetivos. E essa autorização também foi negada, várias vezes, por vários países, desde a guerra do Yom Kippur em 1973 até à intervenção na Líbia em 1986. Isto para não falar da crise do Suez, em 1956, em que os EUA sabotaram ativamente uma operação militar dos seus aliados europeus, Grã-Bretanha e França, a quem humilharam publicamente, numa tentativa desesperada e vã de conquistar o apoio de Nasser. Podemos concordar, mais ou menos, com essas decisões, mas é inquestionável que nenhuma delas viola o compromisso acordado no seio da Aliança Atlântica.
Um mundo mais conflituoso é mais caro para todos
O que podemos retirar de fundamental em termos do futuro da política e da economia globais? A lei da selva de que Trump tanto parece gostar sai-nos muito cara a todos. Os EUA continuam a precisar dos aliados europeus e as bases militares não são um favor à Europa, mas um grande trunfo dos norte-americanos, desde que sejam aliados fiáveis. Mas Trump não percebe o que é uma aliança. Trata os aliados como vassalos a quem pode dar ordens pelas redes. Pensa que os líderes europeus podem ser destratados publicamente, e irão reagir no modelo de adulação norte-coreana de Mark Rutte. Com essa postura o atual secretário-geral da NATO alimenta expectativas cada vez mais irrealistas e perigosas de alinhamento europeu com Trump. A grande questão a respeito do futuro da NATO será perceber se Trump respeita a legislação que limita o que pode legalmente fazer, sem autorização do Congresso, para se retirar da aliança, ou para retirar tropas americanas da Europa. Mesmo sem uma retirada formal, tem muito poder para esvaziar na prática o compromisso norte-americano com a NATO. A Aliança Atlântica pode sobreviver formalmente a mais 3 anos de Trump, mas corre o risco de se transformar num zumbi geoestratégico, num morto-vivo da segurança global.
Num aspeto Trump tem razão: os europeus não podem continuar a confiar tanto na garantia de segurança dos EUA. Mesmo sem Trump, o trumpismo ou o isolacionismo arriscam-se a durar. Isso deve significar mais e melhor despesa em defesa na Europa. Deve significar também mais e melhor coordenação dos esforços militares entre europeus. É urgente pensar numa alternativa à NATO, isso até poderá levar os norte-americanos a dar-lhe maior valor no futuro. Já em 2019 alertei para essa necessidade. Atualmente até a atlantista Polónia fala disso.
Trump também significa menos influência dos EUA na Europa e no Mundo como este conflito ilustra. Em circunstâncias normais, muitos mais países europeus estariam dispostos a ajudar mais os EUA numa guerra com o Irão. Agora, nem Giorgia Meloni – suponho que insuspeita de esquerdismo anti-americano – parece muito disposta a isso. Cada vez mais os líderes europeus percebem que tentar acordos duráveis com Trump é uma ilusão perigosa, e que o presidente dos EUA é politicamente tóxico na Europa. E veremos o que vai acontecer nos países do Golfo, que pensavam ter comprado uma aliança reforçada com Trump, mas podem, agora, voltar-se mais para a China, na procura de estabilizar a relação com o Irão e retomar a normalidade económica.
Quando a grande potência central da ordem global se torna revisionista e imprevisível isso reforça dramaticamente a tendência histórica para um mundo em transição de poder ser mais conflituoso, mais imprevisível, mais perigoso. Portugal poderá estar longe dos focos de conflito, mas nenhum país escapará às consequências de um mundo mais violento, mais volátil, mais caro. A segurança e a paz são um luxo que temos dado por garantido. Podem tentar mandar a conta a Trump, mas duvido que pague. Já não seria mau se, daqui para a frente, os trumpistas de trazer por casa nos poupassem as tentativas de tentar explicar o inexplicável. Trump tem tido muita fortuna na vida. Até pode ser que, com muito sorte, e graças à situação geoestratégica privilegiada dos EUA, isto não acabe tão mal para Trump como poderia. Veremos é qual será o preço final para nós, menos afortunados, desta aventura de Donald no oriente.
Receba um alerta sempre que Bruno Cardoso Reis publique um novo artigo.
