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Europa acossada, Portugal decisivo: a escolha atlântica

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02.02.2026

Há décadas que a Europa gosta de se imaginar como um velho professor: severo, moral, com uma régua na mão e um tratado debaixo do braço. Só que, no mundo real (essa disciplina sempre mal-comportada), os tratados não travam tanques, nem as regras de concorrência abatem drones. E o professor — cansado, envelhecido, com a sala a arrefecer — descobre que a campainha já não toca quando ele quer; toca quando os vizinhos batem à porta.

O detalhe é que a sala deixou de ser sala. Sem grande aviso, o professor foi empurrado para uma plateia. Hoje, a Europa tem o ar de quem entrou num teatro para ver uma tragédia clássica e descobriu que a peça é interativa, o cenário arde e o público faz parte do elenco. O texto ainda existe, claro, mas já não comanda a ação: comanda menos do que as entradas e saídas, menos do que as portas e os corredores, menos do que a mecânica prática de quem controla o espaço.

E é aí que o palco se revela aquilo que sempre foi: um mapa. A Europa entrou numa fase em que os mapas voltaram a ser mais persuasivos do que os comunicados. A retórica continua a ocupar espaço — como decoração respeitável — mas o essencial regressa ao velho alfabeto do poder: posição, distância, acesso, profundidade. O continente, habituado a viver da autoridade moral e da sofisticação regulatória, descobre que há atores que preferem geografia a jurisprudência. A oriente, a Rússia insiste em tratar a Ucrânia como extensão de uma esfera de influência. A ocidente, os Estados Unidos voltam a falar da Gronelândia com uma franqueza que, há poucos anos, teria ficado trancada no dossier do “impensável” — e que hoje regressa, de gravata impecável e voz de relatório, a pedir reconhecimento como “realismo”.

O quadro é simples e desconfortável. A Rússia quer influência sobre a Ucrânia porque, para Moscovo, a segurança continua a medir-se em profundidade estratégica, zonas-tampão e memória continental. Os Estados Unidos querem garantir o Ártico e o Atlântico Norte porque, para Washington, a segurança continua a medir-se em corredores, bases, rotas e capacidade de projetar poder sem pedir licença à meteorologia — nem ao humor do eleitorado europeu. E a Europa, no meio, tenta convencer-se de que o destino se negoceia em diretivas e não em coordenadas, como se a cartografia fosse um género literário e não um instrumento de ação.

Daí a tentação europeia, quase instintiva: refugiar-se na virtude — o Direito Internacional — quando precisa de força. Nos grandes romances russos — em Tolstói, com salões a polir princípios enquanto a guerra reescreve a ordem do mundo, e em Dostoievsky, com consciências a elevarem-se em sermões enquanto a realidade se cobra em sangue e dívida — há sempre uma figura capaz de um discurso irrepreensível no exato instante em que a casa, por trás, começa a ruir.

E há um detalhe mais sombrio........

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