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A Guerra Civil Financeira Portuguesa de 2006-2008

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01.04.2026

A 4 de janeiro de 2017 o Estado abriu formalmente o cofre para salvar a Caixa Geral de Depósitos. No fim de março desse ano, o plano acordado entre o Estado português e a Comissão Europeia para a CGD traduzira-se num reforço de capital cujo total global ascendeu a 4.944 milhões. Esta foi a conta oficial. Mas a dívida moral, política e estratégica vinha de trás. A reestruturação da Caixa foi apenas o epílogo administrativo de uma guerra muito mais antiga e muito mais funda: a guerra civil financeira portuguesa de 2006-2008.

O essencial passara-se antes, com datas, nomes, atas e centenas de milhões de euros. O relatório final da comissão parlamentar é inequívoco: os financiamentos inicialmente concedidos pela CGD aos grupos Investifino, Goes Ferreira e José Berardo ascenderam a mais de 500 milhões de euros; e, só nas operações diretamente ligadas à aquisição e ao reforço de posições em ações do BCP, a Caixa aprovou ou mobilizou pelo menos 447 milhões de euros. Não se tratou de uma querela de administração entre vaidades feridas. Tratou-se de crédito público mobilizado para interferir no comando do maior banco privado do país.

A cronologia basta para mostrar a escala do desvario. Em 21 de junho de 2007, o Conselho Alargado de Crédito da CGD aprovou à Investifino até 153 milhões de euros para a compra de ações do BCP, acrescidos de 11,85 milhões para refinanciar uma operação anterior relativa a ações do mesmo banco. Poucos dias depois, no universo José Berardo, foram utilizados 138 milhões em 25 de junho de 2007, mais 108 milhões em 28 de junho, mais 10 milhões em 9 de setembro e, já em 29 de abril de 2008, mais 38 milhões no âmbito do mesmo limite. Só esta frente de combate perfaz 294 milhões de euros. Somada à operação da Investifino, dá o tal mínimo conservador de 447 milhões diretamente canalizados para a batalha acionista em torno do banco. Tudo isto aconteceu sob o XVII Governo Constitucional, chefiado por José Sócrates.

O defeito da operação não estava num pormenor técnico. Estava no coração do negócio. Não foi a simples compra de ações, em abstrato, que desacreditou o BCP. Uma compra normal, dispersa e economicamente racional pode até empurrar uma cotação para cima no curto prazo. O que destrói confiança é outra coisa: uma guerra de controlo à vista de todos, financiada a crédito, concentrada em poucos veículos, e ainda por cima escorada nas próprias ações do banco transformado em campo de batalha. A partir daí, o mercado deixa de ver apenas procura e passa a ver instabilidade de comando, risco de captura política, volatilidade acrescida do ativo que serve de garantia e fragilidade potencial do próprio credor. Num banco, a confiança não é um adereço; é parte do seu valor. Foi exatamente por isso que o aparente impulso comprador não se traduziu em valorização saudável, mas em corrosão institucional, constatável a partir do desenho da operação e da evolução posterior das garantias e da dívida.

Dito sem anestesia: a Caixa aceitou como colateral o mesmo ativo cuja credibilidade a própria operação tratava de pôr sob pressão. Era um desenho quase suicidário. Se a guerra elevasse a volatilidade e derrubasse a cotação, a garantia encolhia. Se a garantia encolhesse, o risco do credor subia. Se o risco subisse, o mercado passava a........

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