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Três graus e a tentação do sossego

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09.05.2026

O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas abandonou os cenários mais sombrios e fixou o pior caso plausível em 3 a 3,5 graus de aquecimento até 2100. Em vez de descanso, esta revisão devia reforçar a exigência política. Há uma diferença entre vencer o medo e dispensar a lucidez.

Há gestos científicos que parecem técnicos e, no entanto, são profundamente civilizacionais. A decisão do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, divulgada nestes primeiros dias de maio, de abandonar o cenário extremo conhecido na literatura como RCP 8.5 e de reorganizar o seu trabalho em torno de pathways médios entre os 3 e os 3,5 graus de aquecimento até 2100, pertence a esta categoria. Não foi um anúncio. Foi uma autocorreção pública. Uma instituição com três décadas de cautela soltou da boca, com serenidade, aquilo que muitos cientistas vinham a sussurrar há anos: o pior dos piores cenários, aquele que alimentou capas de revistas, manifestos juvenis e cassandras várias, era estatisticamente improvável.

A primeira reação previsível foi o aplauso dos errados. Os mesmos comentadores que durante quinze anos negaram a urgência climática, os mesmos editorialistas que escarneceram da precaução intergovernamental, descobriram, num dia, virtude no método científico. As redes sociais encheram-se da palavra “implausível”, convertida em arma retórica para tudo o que continua, pacientemente, a aquecer a atmosfera. É a ironia conhecida das instituições maduras. Quando admitem um erro de calibração, oferecem munição a quem nunca aceitou o seu acerto.

Convém, por isso, distinguir três coisas que estão a ser publicamente confundidas.

A maturidade é diferente do sossego

A primeira distinção é metodológica. O cenário RCP 8.5 nunca foi uma previsão central, era uma extremidade modelar útil para medir........

© Observador