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Amarrar-se ao mastro com um nó corredio

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05.09.2026

Homero conta que Ulisses, para ouvir as sereias sem se perder, mandou os companheiros taparem os ouvidos com cera e amarrarem-no ao mastro, com ordem expressa de apertarem as cordas se ele suplicasse que o soltassem. É a mais antiga descrição de um problema por resolver, o de saber como é que alguém se protege de si próprio no momento em que a tentação chega. Ulisses não confiou na sua firmeza futura. Delegou-a a terceiros e a um pedaço de corda.

A política climática nasceu desta mesma desconfiança. Metas para 2030, 2040 e 2050, orçamentos de carbono quinquenais, conselhos independentes com mandato para dizer em público que o governo se desviou. Nada disto seria necessário se bastasse a boa vontade de cada legislatura. Existe precisamente porque não basta.

Dois nós, no mesmo dia

Na quarta-feira, 2 de setembro, aconteceram duas coisas que parecem sem relação e são a mesma pergunta vista de dois lados.

Em Bruxelas, o Tribunal Geral da União Europeia rejeitou o recurso de duas organizações ambientais, a CAN Europe e a Global Legal Action Network, que pediam a revisão das dotações anuais de emissões atribuídas aos Estados-Membros entre 2023 e 2030. O tribunal não chegou a discutir se a meta de 2030 é suficiente à luz do Acordo de Paris. Decidiu antes disso, e sobre outra coisa, que um procedimento de revisão administrativa não serve para reabrir um objetivo fixado pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho. Traduzido, a Comissão não pode desfazer por via executiva aquilo que o legislador amarrou.

Em Londres, no mesmo dia, o principal partido da oposição apresentou um projeto de lei para revogar a Climate Change Act de 2008, extinguir os orçamentos de carbono........

© Observador