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A primeira civilização a esquecer-se de pensar

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05.06.2026

Toda a gente concorda que vivemos a era mais informada da história humana. É uma das mentiras mais bem instaladas do nosso tempo, e a sua eficácia reside precisamente no facto de ser tecnicamente verdadeira. Nunca houve tanta informação ao alcance de tantos. Nunca foi tão barato saber. E nunca, talvez, soubemos coletivamente tão pouco sobre o que importa decidir. Esta contradição não é um paradoxo curioso para conversa de café. É o sintoma central de uma patologia civilizacional que ainda não tem nome consensual, mas que já tem vítimas a perder de vista: a erosão silenciosa da nossa capacidade crescente de pensar.

Houve um momento, no início deste século, em que muitos de nós acreditámos no contrário. Acreditámos que a internet democratizaria o conhecimento, que daria voz aos sem voz, que dissolveria os filtros editoriais de uma imprensa fechada sobre si mesma. A expectativa não era ingénua. Tinha fundamento. Os primeiros anos das redes, antes da captura publicitária e da algoritmização das linhas de tempo, deixaram entrever o que essa promessa poderia ter sido. Vinte anos depois, a promessa foi traída, e convém ser preciso sobre o sentido da traição. Não fomos enganados por um mentiroso. Fomos reorientados por uma economia. As plataformas que prometiam emancipação descobriram que a atenção humana valia mais quando capturada do que quando libertada, e otimizaram-se em conformidade. O espaço público transformou-se, sem aviso e sem assinatura de rendição, num mercado de estímulos.

O problema não é o que sabemos, é o que já não conseguimos avaliar

Há um equívoco confortável que importa desmontar. Quando falamos de desinformação, imaginamos o cidadão crédulo que acredita em mentiras grosseiras, e consolamo-nos com a distância que julgamos manter dele. Mas a infodemia não é, em rigor, um problema de quantidade de mentira. É um problema de colapso da hierarquia. Durante séculos, o espaço público funcionou porque dispunha de instituições com função epistémica: jornais com linha editorial responsável, universidades com revisão por pares, tribunais com regras de prova, administrações com critérios de transparência. Eram imperfeitas, por vezes corruptas, frequentemente arrogantes. Mas faziam uma coisa insubstituível: hierarquizavam. Diziam-nos,........

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