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A crise na educação e os reflexos na sociedade

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24.01.2025

Há dias, vivi uma experiência que, se por um lado não foi inédita, por outro demonstrou de forma contundente a crise de valores que se faz sentir na educação das nossas crianças. Encontrava-me numa fila de supermercado, onde apenas duas caixas abertas acumulavam uma aglomerada fila de clientes, quando presenciei uma situação tão corriqueira quanto perturbadora: uma criança, de cerca de cinco ou seis anos, deitada no chão, gritava a plenos pulmões e agitava-se com violência porque desejava um brinquedo guardado numa caixa. A berraria atraía os olhares da clientela, mas o que mais me chamou a atenção foi a total falta de reações adequadas por parte dos adultos que a acompanhavam. Enquanto a avó tentava, com uma voz suave e complacente, acalmar o pequeno, a mãe mantinha-se impávida, ruborizada, porém aparentemente resignada ou indiferente ao espetáculo.

Perante aquela cena, envolveu-me uma mistura de inquietação e indignação. Senti o impulso de intervir, de chamar a atenção para a inadequação de tal comportamento infantil num espaço público. Contudo, mais do que o incómodo causado pela gritaria, o que verdadeiramente me perturbou foi a reflexão que este episódio despoletou em mim. Como estamos a educar as nossas crianças? Que valores lhes transmitimos? E, sobretudo, que tipo de sociedade pretendemos construir a partir de exemplos como este?

A pergunta que se impõe é de simples formulação, mas de resposta complexa: que adulto se tornará esta criança? Crescerá com respeito pelos mais velhos? Saberá aceitar contratempos e lidar com frustrações? Ou estará destinada a repetir, em diferentes moldes, a conduta de desconformidade que hoje encena, alicerçada no permissivismo dos seus cuidadores? Esta breve cena de birra pública não se resume a um episódio isolado de teimosia infantil; espelha, antes, a extensa rede de permissividades e lacunas educativas que se enraíza no seio........

© Observador