A narrativa da ONU sobre natalidade
Há relatórios que esclarecem. E há relatórios que, sob a aparência de correção moral, simplificam em demasia realidades complexas. O mais recente documento do UNFPA (ONU) apresentado como um antídoto contra a ideia de que “as pessoas não têm filhos porque não querem”, corre o risco de cair precisamente no erro que denuncia: substituir uma explicação redutora por outra igualmente incompleta.
Convém começar pelo essencial. A literatura científica das últimas décadas é notavelmente consistente em um ponto: o declínio da natalidade é um fenómeno multifatorial, profundamente enraizado em transformações económicas, sociais e culturais. Não há um único motor. Há um sistema de forças interdependentes.
Ao recentrar o debate quase exclusivamente nos “constrangimentos”, como custos, habitação, precariedade, o relatório da ONU não está errado. Mas está incompleto. E, ao sê-lo, torna-se enganador.
Vejamos o que dizem os dados.
Estudos do Pew Research Center que já aqui citei e comentei na rádio mostram um aumento claro da proporção de adultos que afirmam não querer filhos ou querer menos filhos, citando razões como autonomia pessoal, estabilidade financeira e liberdade de estilo de vida.
A OCDE, em análises........
