Os americanos queriam as Lajes. O problema era Portugal
Há 75 anos, no dia 6 de setembro de 1951, Portugal assinou com os Estados Unidos um acordo sobre os Açores.
Dito assim, parece uma informação destinada a viver tranquilamente numa cronologia escolar, entre duas datas, três nomes e uma nota de rodapé. É uma das pequenas injustiças da História: há acontecimentos extraordinários que tiveram o azar de receber nomes administrativos, e “Acordo de Defesa entre Portugal e os Estados Unidos respeitante ao uso de facilidades nos Açores” não promete propriamente adultério, sangue, traição ou sequer um jantar que tenha corrido mal.
No entanto, a história é ótima.
E começa com uma coisa que convém recordar, porque temos uma tendência curiosa para começar a contar a história das Lajes apenas quando aparecem os americanos: as Lajes não foram inventadas pelos americanos.
Muito antes de aparecer um GI a mastigar pastilha elástica na ilha Terceira, os portugueses já tinham percebido que aquela planície servia bastante bem para pousar aviões. Em 1934, a Engenharia Militar iniciou ali a construção de uma pista e, em julho de 1941, quando Portugal reforçava militarmente os Açores em plena Segunda Guerra Mundial, as Lajes já estavam em condições de utilização operacional. No ano seguinte, o aeródromo passou a ser designado Base Aérea n.º 5; a atual BA4 só seria transferida de São Miguel para as Lajes em 27 de junho de 1946.
O pormenor interessa porque existe uma tendência muito portuguesa para começarmos a nossa própria história precisamente no momento em que chega um estrangeiro, como se, antes disso, estivéssemos apenas a contemplar o mar e a pastar vacas.
Havia vacas, evidentemente.
Mas também havia uma base aérea.
Em 1943, a Segunda Guerra Mundial já tinha percebido aquilo que os mapas sabiam desde sempre: os Açores estavam estupidamente bem colocados. O Atlântico era atravessado pelos comboios que mantinham a Grã-Bretanha abastecida, enquanto os submarinos alemães tentavam mandá-los para o fundo, e existia no meio do oceano uma enorme zona onde a cobertura aérea aliada era insuficiente.
Os Açores estavam precisamente no meio do problema e, portanto,........
