A grande liberdade americana
Nos anos 80 ou 90, era-se livre porque se queria ser livre, porque se queria aderir livremente à democracia, à economia de mercado, às eleições de quatro em quatro ou cinco em cinco anos, à separação de poderes, à imprensa livre e a um McDonald’s na praça principal. Os muros de separação eram construídos, não para não deixar mais ninguém entrar no nosso modelo de vida, mas para não deixar mais ninguém sair. E quando caíam, era por eles mesmos. Por se querer dançar a música que se ouvia do lado de cá.
Nos 20/20, não. A liberdade é agora uma coisa que se deve enfiar goela abaixo. O liberalismo económico, aparentemente, um regime dirigido centralmente a partir do governo, que pretende sufocar com impostos quem não lhe queira vender barato o seu país, que usa o dinheiro público para comprar participações em empresas privadas e lhes dizer o que devem dizer, que tipo de energia devem consumir e que até alvitra qual a receita ideal para a Coca-Cola. Sim, há que encará-lo sem medos: a liberdade americana ou eu – um de nós envelheceu muito mal.
Uma vez mais, a administração moralista que não ia voltar a meter-se na vida dos outros países nem dizer-lhes como viver, meteu-se na vida doutro país para lhe dizer como viver. Depois de tentar anexar o Canadá e a Gronelândia, querer mandar as suas tropas para o México e mudar o nome ao pobre do Golfo, influenciar eleições na Alemanha ou na Hungria, incentivar o Reino Unido à guerra civil, bombardear o Irão, determinar o futuro de Gaza e exigir mil milhões de dólares aos que quiserem entrar no “Conselho da Paz” que vai dividir o bolo, chega agora à porta do segundo maior objectivo que tinha em mente quando derrubou um ditador na Venezuela, mas deixou ficar a ditadura: Cuba – isto é, o grande fétiche da grande América referida no “Make America Great Again”. Uma ideia de América que passa por muito moderna, mas permanece congelada no mundo em que cresceu nos anos 60 ou 70. Um mundo onde ainda não havia alterações climáticas nem a China era uma potência económica, onde tudo funcionava a petróleo e carvão e se bebia em palhinhas de plástico.
Que importa se Cuba vive há décadas mergulhada numa pobreza crónica como só o comunismo pode criar? Na cabeça de Trump e de Rubio, talvez ainda estejam a derrubar Fidel em plena crise dos mísseis. Só assim se pode entender que, em vez de deixar o regime cair de podre, fosse preciso ir lá desligar-lhe a máquina. E assim, secando a torneira do petróleo venezuelano, desviado para os consumidores americanos ou para aqueles a quem o entendam vender, assistimos placidamente ao colapso de uma ilha que, sem energia, já não pode sequer alimentar a única indústria rentável que lhe restava: o turismo. E então, sem dinheiro nem comida, há-de o povo cubano perceber, enfim, como é mau o comunismo e linda a liberdade.
Claro. Já se conseguem ouvir nos recantos em branco desta página os comentários dizendo que foi sempre assim (que esses comentários venham tanto da esquerda como da direita extremas é um sinal dos tempos que nenhum dos lados se preocupa demasiado em notar). Mas não, não foi sempre assim. Primeiro, costumava separar-nos dos modelos totalitários não matar ninguém à fome para o convencer da bondade das nossas ideias. Segundo, costumávamos saber que toda a beleza do capitalismo reside, precisamente, em fazer com que, mesmo incentivando cada um a pensar nos seus interesses, no fim, todos saiam a ganhar. Em último caso, quando tudo o mais falhava (nomeadamente, a racionalidade para definir um plano como deve ser, vide Iraque 2003), os americanos ao menos ainda se davam ao trabalho de fazer uma invasão militar. Nos anos 20/20, não, que isso custa muitos dólares e muitos votos. Nos anos 20/20, não se põem forças armadas em confronto; deixa-se que sejam os civis a sofrer as consequências. Descaradamente.
Mas há algo ainda mais curioso nesta nova concepção de liberdade. É que, antigamente, dávamos liberdade, comprávamos petróleo e ficávamos ambos com os dois – petróleo e liberdade. Agora, não. Agora, dizemos: fiquem lá com a nossa liberdade que nós preferimos o vosso petróleo. Troca directa, como quem troca uma galinha por um cacho de bananas. E quem disser o contrário terá a sua licença confiscada, o seu emprego em risco, o seu financiamento cortado, o seu nome arrastado na lama pelo próprio Presidente, o ICE a intimar as grandes tecnológicas a ceder-lhe as suas informações privadas ou já a entrar-lhe porta adentro.
Sim, deve ser por estarmos velhos que este novo modelo de liberdade parece não só ignóbil, como incrivelmente estúpido. Que, em vez de esperar que um péssimo regime político-económico caia por ele, se vá lá criar mais mártires pró-comunismo e anti-americanismo. Que um dos efeitos mais imediatos desta crise vá ser juntar à porta da fronteira americana mais uns milhões de refugiados. E enquanto afastamos os países aliados e criamos o absurdo histórico de deixar à China o papel de última esperança no livre mercado concorrencial, apertamos mais o pé no pescoço de uma população até que ela suplique por liberdade. Liberdade à Trump. Liberdade à força.
Resta a um liberal à antiga confiar que, no fim, o capitalismo vence sempre. Que o suicídio do soft power americano o conduzirá a um isolamento económico que forçará a retirada de campo dos sonhos monopolistas mais húmidos do MAGA. Que os cubanos ficarão efectivamente mais livres, mas só os que sobreviverem. E rezar ao bom Deus de Rubio para que, um dia, a China não se lembre de nos cortar a luz até nos convertermos à maravilha do seu modelo político-económico.
Até à vitória por submissão, sempre.
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