Disfunção erétil: quando o corpo pede socorro em silêncio
Comecei um desenvolvimento lindo há duas semanas e resolvi trazer essa reflexão para vocês. Vou preservar a identidade dele, então vou chamá-lo de Miguel. Um homem na casa dos quarenta e poucos anos, bonito, inteligente, sensível, bem-sucedido, mas atravessado por uma dor silenciosa que fere muitos homens por dentro: a disfunção erétil. Ele já havia buscado diferentes terapias, já havia procurado soluções médicas, investigado hormônios, feito exames. Os marcadores estavam normais. Mais recentemente, começou a tomar um ansiolítico e sentiu que a libido caiu ainda mais. E isso não é incomum: dificuldades de ereção podem ter causas emocionais mesmo quando exames físicos estão normais, e alguns medicamentos usados para ansiedade e depressão podem interferir no desejo e na função sexual. Além disso, quando a dificuldade é persistente, ela também merece avaliação médica porque pode ser sinal de outros problemas de saúde.
Na primeira sessão, o que mais me chamou atenção não foi apenas a queixa sexual. Foi a distância drástica dele da própria energia masculina. E quando eu falo em energia masculina, eu não estou falando de dureza, machismo ou performance. Estou falando de presença. Direção. Enraizamento. Capacidade de estar no corpo sem precisar provar nada. Muitos homens foram ensinados a associar masculinidade com desempenho. Precisam funcionar, render, sustentar, impressionar. Precisam estar sempre prontos. Sempre fortes. Sempre no controle. E, aos poucos, vão se desconectando do sentir. Saem do corpo e passam a viver dentro da própria cabeça. O sexo deixa de ser encontro e vira teste. A intimidade deixa de ser experiência e vira avaliação. E o corpo, que não gosta de viver em tribunal, começa a responder com silêncio.
Existe algo importante aqui que quase ninguém ensina aos homens: a ereção conversa muito mais com segurança do que com força. O corpo erótico não floresce bem sob ameaça. Quando uma pessoa está ansiosa, estressada ou tomada pela autocobrança, o sistema de alerta do corpo ganha protagonismo. E a sexualidade, que pede relaxamento, presença e certa entrega, perde espaço. O sistema nervoso simpático, ligado ao estado de luta ou fuga, pode atrapalhar processos ligados ao relaxamento corporal, enquanto o parassimpático é o que favorece estados de calma, descanso e função sexual. Em linguagem simples: um corpo em vigilância não se entrega com facilidade. Um corpo que precisa se defender o tempo todo não consegue, ao mesmo tempo, se abrir plenamente para o prazer.
E foi exatamente isso que eu vi nele. Não vi um homem “fraco”. Não vi um homem “quebrado”. Vi um homem cansado de viver em alerta. Cansado de sustentar uma imagem. Cansado de tentar corresponder. Em algum lugar da história dele, ser homem virou uma tarefa e não uma experiência viva. O corpo estava ali, mas sem descanso. O desejo existia, mas sequestrado pela ansiedade. O toque já não era mais um lugar de descoberta, mas um campo de antecipação do fracasso. E isso é devastador para a autoestima masculina. Porque muitos homens ainda acreditam que, se a ereção falha, o homem inteiro falhou. E não é
verdade. Às vezes, o que falhou foi o excesso de cobrança. Às vezes, o que adoeceu foi a relação desse homem com a própria sensibilidade. Às vezes, a ereção não falha. Ela fala.
Ela fala de um corpo que talvez esteja pedindo menos pressão e mais presença. Fala de uma psique que já não aguenta mais confundir desejo com obrigação. Fala de um masculino que precisa se reconciliar com o sentir, com a vulnerabilidade, com o tempo do próprio corpo. Porque não existe potência real onde não existe escuta. Não existe presença erótica profunda onde tudo virou meta, cobrança, resultado. O homem que vive desconectado do peito, da respiração, do ventre e da verdade emocional pode até continuar performando em muitas áreas da vida, mas na intimidade o corpo tende a revelar o que a alma tenta esconder.
Também é preciso dizer com delicadeza algo que considero essencial: quando um medicamento parece piorar libido, ereção ou satisfação sexual, isso deve ser conversado com o médico que acompanha o caso, nunca manejado sozinho. O corpo sexual é sensível a muitos fatores, e ajustar tratamento com responsabilidade faz parte do cuidado. Ao mesmo tempo, os próprios protocolos médicos reconhecem que estresse, ansiedade, autoestima abalada e questões relacionais podem causar ou agravar a disfunção erétil. Ou seja, nem tudo que dói no sexo nasce no órgão sexual. Às vezes, nasce no medo. Na pressão. Na vergonha. Na forma como aquele homem aprendeu a existir.
O que me comove nesses atendimentos é perceber que, por trás da queixa sexual, quase sempre existe um pedido mais profundo: “me ajude a voltar para mim”. E talvez seja justamente esse o ponto mais bonito dessa jornada. Não se trata apenas de fazer o pênis funcionar. Trata-se de devolver esse homem ao próprio corpo. À própria verdade. À própria respiração. Ao próprio eixo. Trata-se de ajudá-lo a sair do personagem e voltar a habitar a própria pele. Porque um homem verdadeiramente conectado com sua energia masculina não é o homem que prova mais. É o homem que presença mais. Que sente mais. Que sustenta o olhar sem precisar se defender dele. Que toca sem pressa. Que deseja sem desespero. Que entende que virilidade não é rigidez. É vida pulsando com verdade.
Talvez muitos homens precisem ouvir isso: você não é menos homem porque o seu corpo pediu pausa. Você não é menos desejável porque atravessou um período de dificuldade. E você não precisa enfrentar isso sozinho. Há algo de muito masculino, inclusive, em ter coragem de olhar para a própria dor sem máscaras. Em pedir ajuda. Em descer da armadura. Em aprender um novo jeito de estar em si. Porque, no fim, a cura de muitos homens talvez não comece no desempenho. Talvez comece no instante em que eles percebem que a ereção não era só sobre sexo. Era sobre reconexão. Era sobre segurança. Era sobre voltar para casa dentro do próprio corpo.
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