Minas Gerais, Carnaval, encontro e ritmo
Em fevereiro de 1897, Belo Horizonte ainda não havia sido oficialmente inaugurada como capital de Minas Gerais. A cerimônia seria apenas em dezembro. Mesmo assim, foliões atravessaram a Praça da Liberdade ainda em obras e desceram rumo à avenida Afonso Pena fantasiados. A festa veio antes do ato formal. Minas Gerais mostrava, então, que cidade não nasce apenas por decreto. Nasce quando as pessoas ocupam a rua juntas. Antes mesmo de existir oficialmente, a capital já experimentava o poder civilizatório da convivência.
Muito antes da nova capital, em Ouro Preto, o Zé Pereira dos Lacaios já percorria as ladeiras tocando grandes bumbos para anunciar a folia. Criado no século XIX por funcionários do antigo Palácio dos Governadores, o grupo transformou servidores públicos em protagonistas da rua. À frente do cortejo iam os catitões, bonecos gigantes feitos de madeira e papel, caricaturas da vida política e social.
Em Mariana, o Zé Pereira da Chácara mantém tradição semelhante desde o fim do século XIX, com bonecos estruturados em taquara e revestidos de papel pintado à mão que satirizam fatos e personagens locais.
Em Diamantina, a Banda do Sapo Seco desfila desde 1923 com máscaras que ironizam acontecimentos da cidade e não são retiradas durante o cortejo.
Atualmente, em Belo Horizonte, o Então, Brilha!, meu bloco favorito, acorda a rua Guaicurus antes do amanhecer e se tornou símbolo da retomada do Carnaval de rua da capital. O Baianas Ozadas ocupa a avenida Afonso Pena com repertório que dialoga com a tradição afro-brasileira. O Afoxé Ògún Dé leva atabaques à Pampulha. Blocos como Juventude Bronzeada, Quando Come Se Lambuza e Truck do Desejo mostram que o Carnaval também é invenção recente. Não é apenas desfile. É ocupação consciente do espaço urbano.
No Triângulo Mineiro, Uberlândia mantém escolas de samba e desfiles na avenida Balaiadas. Em Uberaba, o Bloco da Vida mistura música e solidariedade. Em Divinópolis, o Bloco do Divino preserva marchinhas próprias. Em Governador Valadares, o Trupico do Lalá ocupa a Ilha dos Araújos com repertório autoral. Em Juiz de Fora, blocos voltaram a tomar o Parque Halfeld. Em Poços de Caldas, o Banho à Fantasia atravessa décadas. Em Santa Rita do Sapucaí, o Bloco do Urso transformou o Sul de Minas Gerais em destino carnavalesco. Em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, bandas e batuques mantêm o encontro como tradição. Cada cidade descobre sua forma de marcar o compasso e afirmar sua identidade.
Se eu fosse citar todas as manifestações de Minas Gerais, precisaria de um jornal inteiro.
Ao longo da história, tentaram disciplinar o entrudo, antiga brincadeira popular em que se jogavam água e farinha nas ruas e que foi considerada excessiva no século XIX. Tentaram organizar trajetos, conter a multidão, enquadrar o improviso. Ainda hoje há quem tente. Não conseguiram antes. Não conseguirão agora. A festa permanece porque é maior que o incômodo dos que preferem ordem sem alegria.
O Carnaval em Minas Gerais não é concessão do poder público nem espetáculo importado. Ele nasce de associações de bairro, baterias formadas por amigos, ensaios em garagens e fantasias preparadas semanas antes de fevereiro. Ele mobiliza ambulantes, artistas, comerciantes, famílias inteiras, músicos e servidores municipais. Ele movimenta a economia local e fortalece vínculos comunitários. Quando a rua se organiza para a festa, ela também aprende a se organizar para a cidade.
Há quem diga que o mineiro é silencioso. Não é. Num Brasil cansado de gritos, Minas Gerais oferece ritmo. E, num tempo de permanente confronto, Minas Gerais oferece encontro.
Não é barulho. É convivência. É saber ajustar o passo ao outro sem perder a própria identidade.
Vivemos dias em que políticos querem ser seguidos nas mídias sociais e nas ruas. Eu não. Quero ser só mais um. Aliás, sou só mais um numa multidão experimentando essa forma simples e poderosa de democracia que o Brasil oferece ao mundo. O nome dela é Carnaval.
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