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Censura elegante

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thursday

Atenção, muita atenção escritores, cronistas, autores, poetas: pensem uma, duas, dez vezes antes de botarem suas ideias e sentimentos no papel. Depois de digitá-los, revisem tudo – uma, duas, dez vezes. E, pelo sim e pelo não, acendam uma vela para Santa Cecília, padroeira dos poetas e outra para São Francisco de Sales, valoroso guardião dos escribas.

O Brasil acaba de importar, diretamente dos EUA, a mais nova e charmosa modalidade de censura à criação – incluindo romances, biografias, aventuras, roteiros cinematográficos, peças de teatro e assemelhados. Trata-se do “sensitivity reader”, e já explico o que o cara faz.

Esse “leitor sensível” que começa a povoar as editoras do mundo, incluindo as do Brasil, vem ocupar o mais novo cargo na hierarquia nebulosa do referido universo. O que ele faz? Ora, o sujeito passa o dia lendo manuscritos e, com um marcador de textos em punho, assinala “conteúdos que possam provocar pressões e boicotes” – segundo a reportagem. Graças ao trabalho desse carrasco dos tempos modernos, as editoras evitam publicar enredos, narrativas, referências, diálogos ou qualquer palavrinha que possa ferir a sensibilidade de seus caros (no sentido mercadológico) leitores.

Sabe-se ainda que desses profissionais da canetinha não é exigido nenhum conhecimento literário, nenhum recheio intelectual mais sofisticado. Só importa seu olhar atento de carrasco, decapitando palavras, períodos, parágrafos ou obras inteiras. Em resumo: acaba de ser discretamente inserida em nosso mundo a “censura elegante”, politicamente correta, mais uma chatice repressora e limitadora da criatividade.

Dizem que o papel aceita tudo e que gosto não se discute, só se lamenta. Uma rápida passagem pelas prateleiras das livrarias – com uma paradinha estratégica no balcão de “lançamentos” - nos dá uma ideia da quantidade de besteiras publicadas. Mas isso faz parte da história, foi sempre assim. Há bobagens adequadas à preferência de todos e cada um compra o livro ou assiste ao filme que bem entender.

A indústria cinematográfica, pisando em ovos, vem se protegendo. Há regras que devem ser obedecidas pelo roteirista e pelo diretor. Animais, em histórias infantis, mesmo aqueles horrendos e sanguinários, jamais podem ser “mortos”. São, no máximo, escorraçados pelo herói e escapam com o rabo entre as pernas. Na mesma linha, o príncipe-mocinho-galã jamais “matará” o feio-vilão-cruel usando suas próprias mãos – com uma espada, digamos. O fim do maldoso acontece por obra do destino ou da natureza. A torre do castelo desaba sobre ele, após o último duelo do filme, por exemplo.

De certa forma, isso explica uma estranha sensação que vem me ocorrendo cada vez que começo a assistir séries ou filmes novos no Netflix ou Prime. Em menos de dez minutos (ou já no segundo episódio) sou capaz de identificar a ação dos patrulheiros, forçando o roteirista a inserir tipos de personagens obrigatórios, modos de dizer, neologismos, abordagens politicamente corretas e outras asneiras exigidas pelo dinheiro das redes e censores elegantes da criatividade. Desligo logo e vou em busca de produções dos bons tempos da liberdade de expressão.

Refletindo sobre a presença do “sensitivity reader”, tive a sensação de ouvir ruídos e resmungos profundos. Apurei os ouvidos: Nelson Rodrigues, Charles Bukowski, Dostoiévsky, Garcia Marquez, Hemingway, Albert Camus, Machado de Assis, Scott Fitzgerald, Truman Capote e tantos outros que mergulharam nas belezas e nos horrores da alma humana estavam revirando-se nos seus túmulos.

E Franz Kafka, apressado, veio correndo dizer que “jamais teve a intenção de ofender a estimada e respeitada classe Insecta, subclasse Pterygota, da ordem Blattodea e subordem Blattaria”. E que os magoados de plantão não o levassem a mal, por favor: a barata é legal, gente.

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