Zôon politikon
Não posso, nem quero, precisar um ponto no tempo para quando se iniciou o processo, mas decorreu algum desde que existe investimento significativo numa engenharia social destinada a politizar o maior número possível de aspectos da vida do cidadão. A sexualidade, a alimentação, o vestuário, utilitários domésticos, meios de transporte, foram politizados.
Comportamentos sociais, preferências pessoais, hábitos de consumo, foram politizados. Não estamos longe do pináculo do processo, onde, rigorosamente tudo, estará politizado. Partidarizado. Polarizado. Até uma escova de dentes pode vir a denunciar preferências ideológicas. A cultura de cancelamento compete taco a taco com a santa inquisição.
Existe uma pressão inequívoca aplicada ao cidadão para que ele tome uma posição. Para que ele assine por um clube. Já que o interesse do cidadão pela política está reduzido a mínimos desprezíveis, como demonstrado pelos números elevados de abstenção nos actos eleitorais, leva-se a política ao cidadão de outras formas. A parábola da montanha e Maomé.
Além do óbvio, dividir para reinar, reiterado por tantos impérios na miserável cronologia humana, há uma lógica inegável de causa efeito. Se se estão a formar equipas, inevitavelmente, irá acontecer um jogo.
A engenharia social opera em múltiplos parâmetros simultaneamente, afinados para produzirem resultados que oscilam entre o muito provável e o garantidamente certo. Dividir para reinar, aglomerar pessoas por denominador comum arbitrário, são degraus num percurso com destino previsível. Depois de fabricado o inimigo, entra a dessensibilização do cidadão para a guerra e implícitos horrores, oferecendo miséria e violência em formato de entretenimento para as massas. Normalizar divergência de interesses resolvidos à bofetada, envenenando a via do diálogo e diplomacia, manchando-a com fake news, incumprimento de compromissos e outros insucessos, reais ou inventados. Subvertendo o significado das palavras, digno de pesadelo orweliano, instrumentalizando a falta de ética mediante circunstância conveniência ou argumentação, os canalhas são sempre "os outros".
A desumanização e demonização dos alvos inibe a empatia, o remorso, a culpa e por último, a responsabilidade, nos actos hediondos cometidos sobre eles. Ninguém hesita em esmagar uma viúva negra com a bota, sem remorsos. Lá ia ela descansada da sua vida, a pensar caçar um mosquito para a janta, não se meteu com ninguém, não provocou ninguém, ingénua vítima de péssima imagem pública, pimba, já foste. Apenas culpada de ser demasiado pequena para possuir tanto poder.
A ciência diz-nos que um ser humano mentalmente são, sozinho, isolado, não tem propensão para a violência. Em grupo, o caso muda radicalmente de figura. A ciência diz-nos também que o distanciamento do indivíduo ao acto violento tem um papel fundamental. Matar com as próprias mãos, pela proximidade física, contacto directo com a pele da vítima, é raro. Matar com uma espada, cria distanciamento, já se torna mais fácil, o peso moral diminui. Com uma arma de fogo, o distanciamento é ainda maior, torna-se ainda mais fácil, foi a bala não fui eu. As tripulações dos bombardeiros olham para si próprios como aviadores, e não........
