menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O risco da equivalência: Irão, Gaza e os limites da solidariedade

13 0
06.02.2026

A questão não surgiu num painel de discussão ou num debate televisivo. Ela surgiu discretamente e, depois, de forma cada vez mais insistente (e ruidosa), em conversas com pessoas em quem confio, respeito e amo, amigos e familiares que, como muitos de nós, tentam entender um mundo que parece cada vez mais incoerente.

Por que razão, perguntaram eles, no Ocidente, manifestantes saem à rua por causa de Gaza, enquanto a repressão continuada no Irão não suscitou uma mobilização comparável? Não será isso uma evidência de um duplo padrão: de indignação seletiva, de conveniência ideológica e até mesmo de uma indulgência tácita para com a República Islâmica, desde que ela continue hostil a Israel e aos Estados Unidos?

É uma pergunta incómoda e, precisamente por isso, merece uma resposta séria. Não uma resposta defensiva e, certamente, não uma resposta arrogante. Mas sim uma resposta assente na realidade política, e não na responsabilidade moral.

A tentação de comparar Gaza e o Irão é compreensível. Ambos envolvem imenso sofrimento humano. Ambos nos confrontam com imagens de violência, repressão e vidas ceifadas. No entanto, forçá-los a encaixar no mesmo quadro moral é não compreender a natureza destas tragédias, assim como os limites e as responsabilidades da própria solidariedade.

Gaza é palco de uma guerra externa, conduzida por um Estado que conta com amplo apoio militar, diplomático e político dos governos ocidentais. O que está a acontecer em Gaza não é apenas devastador em termos humanos, mas também envolve graves violações do direito internacional humanitário, como tem sido amplamente documentado. Desde o uso desproporcional da força aos ataques a infraestruturas civis e obstrução à assistência humanitária. Neste contexto, os protestos visam não só a violência em si, mas também a cumplicidade que a torna possível. As manifestações tornam-se uma forma de pressionar, ainda que de forma imperfeita, as instituições que afirmam agir em nosso nome. Marchar em Lisboa, Londres, Paris ou Berlim traz consigo uma exigência implícita: “não com o nosso consentimento”.

O Irão é diferente. A violência é interna, sistémica e recorrente. A revolta que se seguiu ao assassinato de Mahsa Amini não foi um começo, mas sim um episódio numa longa sequência de revoltas, em 2009, em 2017-18, em 2019 e posteriormente, cada uma delas recebida com violência e repressão brutais, cada uma deixando para trás os seus mortos, os seus prisioneiros e os seus silêncios. As manifestações e os assassinatos em massa em janeiro de 2026 também não foram uma anomalia, mas uma continuação desse padrão, tornado mais brutal pela crescente vontade do regime de dispensar qualquer restrição.

O que distingue estas revoltas não é a sua novidade, mas a sua clareza. Não foram apelos à intervenção estrangeira, nem pedidos para serem resgatados pelo poder ocidental. Foi uma demonstração de livre-arbítrio: abertamente seculares, assumidamente antiautoritárias e explicitamente hostis ao Islão político. Os iranianos voltaram às ruas sabendo exatamente qual poderia ser o custo dessa decisão.

Para entender por que razão essa resistência tem perdurado e a repressão tem sido tão feroz, teremos de esforçar-nos para........

© Jornal Económico