O memorando da sobrevivência
Em dezembro de 1972, Richard Nixon ordenou uma campanha de bombardeamentos maciços sobre Hanói e Haiphong. Durante onze dias, os Estados Unidos procuraram convencer o Vietname do Norte de que a continuação da guerra seria mais dolorosa do que a negociação. Poucas semanas depois, os norte-vietnamitas regressaram à mesa das negociações e os Acordos de Paris foram assinados. Em Washington falou-se de sucesso diplomático. Em Saigão falou-se de paz com honra. Em Hanói falou-se de resistência vitoriosa. Três anos mais tarde, Saigão caía.
A História não se repete, mas gosta de rimar. O memorando alcançado entre os Estados Unidos e o Irão não é o Vietname, nem Donald Trump é Richard Nixon. Mas a lógica política subjacente é semelhante. Depois de meses de confrontação, ameaças, operações militares, sanções e demonstrações de força, Washington acabou sentado à mesa com um regime cuja sobrevivência muitos julgavam improvável. E quando um regime que deveria cair acaba a negociar, a primeira pergunta não é quem venceu a guerra. A primeira pergunta é quem sobreviveu. Porque, no Médio Oriente, sobreviver é frequentemente a forma mais sofisticada de vencer.
Os catorze pontos do acordo dizem muito sobre esta realidade. O documento prevê o fim imediato das hostilidades, a reabertura do Estreito de Ormuz, o levantamento gradual do bloqueio naval norte-americano, mecanismos de supervisão internacional, o descongelamento progressivo de activos iranianos, um fundo bilionário para a reconstrução e uma nova ronda de negociações sobre o programa nuclear.
O Irão compromete-se a não desenvolver armas nucleares, mas isso já o tinha dito antes, portanto nada de novo. Os Estados Unidos comprometem-se a reduzir a pressão económica e militar.
À primeira vista, parece um compromisso equilibrado, mas não é. Contudo, a política internacional raramente é uma questão de texto. É uma questão de contexto. O contexto é que, há apenas algumas semanas, o debate internacional girava em torno de objectivos muito mais ambiciosos. Falava-se da destruição irreversível da capacidade nuclear iraniana. Falava-se de mudança de regime. Falava-se da possibilidade de uma nova arquitectura regional desenhada à medida dos interesses americanos e israelitas.
Nenhum desses objectivos foi alcançado. O regime permanece no poder. O sistema político iraniano continua funcional. A elite dirigente continua a controlar os principais instrumentos de segurança. O país não capitulou. Não houve rendição. Não houve colapso.
Quando observamos a situação desta forma, a conclusão torna-se inevitável. Os Estados Unidos obtiveram uma pausa. O Irão obteve a sobrevivência e o seu financiamento. E, em ciência política, a sobrevivência de um regime constitui frequentemente a mais importante de todas as vitórias.
Na realidade, o memorando revela menos a força do Irão do que os limites do poder americano. A maior potência militar do mundo conseguiu impor custos,........
