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Nova era do ouro, o ativo do medo

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20.02.2026

A desvalorização do ouro e da prata por Henrique VIII, conhecida como Great Debasement na década de 1540, envolveu a redução drástica do teor de metais preciosos nas moedas inglesas. Esta política visava financiar gastos reais elevados e guerras, resultando em inflação e perda de confiança na moeda. Serve hoje como analogia para os riscos da depreciação das moedas, à medida que os governos modernos emitem mais dívida e moedas como o dólar americano perdem valor, levando investidores a procurar ativos reais, como o ouro.

Não é de estranhar que o metal dourado tenha atingindo níveis históricos, acima dos 5.600 dólares, impulsionados pela instabilidade mundial e pela desvalorização do dólar, que em 2025 teve o ano mais fraco em cinco décadas. E nem mesmo as últimas quedas acentuadas do ouro, como no final de janeiro, numa correção há muito esperada e refletindo a instabilidade dos mercados após a escolha de Kevin Warsh para presidente da Fed, conhecido por ser favorável a juros mais altos para controlar a inflação, travou as expectativas da rápida descida das taxas de juro, reclamada por Trump.

Os fatores fundamentais que sustentam a sua valorização ao longo de vários anos continuam presentes, como a baixa probabilidade de um ciclo rápido de aperto da política monetária a nível global e a persistência das preocupações geopolíticas, que levou o ouro a duplicar o preço num ano e meio, à medida que os investidores protegem a sua exposição das oscilações de Washington e afastam o risco associado à política imprevisível do governo americano.

O principal fator por trás do aumento da procura pelo metal amarelo é Donald Trump. Face ao golpe na confiança na neutralidade do dólar, o ouro — por ser politicamente neutro e livre do risco de sanções — recuperou a proeminência como ativo de reserva. Basta ver que em outubro de 2025, pela primeira vez em 30 anos, os bancos centrais detinham mais ouro do que títulos do Tesouro dos EUA. O rally deve continuar em 2026. Nas entrelinhas, antecipa-se: os países, que mantinham as suas reservas em dólares ou títulos do Tesouro, vão continuar a procurar novas formas de capital para diversificar e reduzir a dependência dos EUA.

O uso do dólar como arma geopolítica acabou por acelerar a própria desdolarização que agora ameaça diluir o poder financeiro norte-americano. A forte queda do dólar não é um fenómeno isolado. Trata-se de um movimento global, que reflete o desconforto crescente dos investidores com a economia dos EUA. A quebra de confiança no dólar americano leva os investidores a voltar-se cada vez mais para o ouro como um ativo de refúgio seguro. Os principais bancos centrais emergiram como compradores chave de ouro, sinalizando uma mudança estratégica na gestão de reservas e uma tendência global coordenada. Um frenesim alimentado por fluxos de capital especulativo da China, que vê no metal dourado um símbolo de resistência à hegemonia monetária ocidental.

É a nova era do ouro que pode estar a atravessar um novo ciclo secular. Entra em 2026 com a procura impulsionada pela incerteza política e a retórica geopolítica beligerante de Trump, e reforça o seu papel como proteção contra a desvalorização da moeda e o risco geopolítico. Não fosse o metal dourado um ativo do medo, um reflexo da insegurança, em pleno ímpeto do debasement trade, que leva investidores a vender títulos do governo, bem como moedas como o dólar, enquanto compram ouro.


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