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O problema nunca foi dar o primeiro passo

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18.03.2026

Contam-se pelos dedos de uma mão os anos em que o mundo respirou com algum alívio desde o início deste século. As crises financeiras globais e o recrudescer de conflitos bélicos alimentados pelo humor imprevisível e motivações inconfessáveis de quem é manifestamente incapaz de gerir um condomínio, quanto mais lidar com as responsabilidades de fazer navegar nações nas águas da paz e da prosperidade fizeram o seu caminho. É por demais aflitivo tudo o que vemos, não apenas no flanco leste da Europa, mas agora neste autêntico barril de pólvora em que está transformado o Médio Oriente, sem se conseguir perceber como é que isto acabará. Todos sabem, ou deveriam saber, que é muito fácil começar uma guerra. O problema é que nunca sabemos como e quando é que ela acaba, nem quando se dissiparão as ondas de impacto que deixa depois das armas se calarem.

  Mas o que já antevemos, até  porque é de uma evidência cristalina, é que vem a caminho outra crise económica  global que começou com a escalada dos preços dos combustíveis e que arrastará o resto. As dívidas vão crescer nas famílias e nas empresas, o desemprego vai subir e voltaremos a tempos de chumbo, onde o amanhã parece ser sempre longe demais. Pelo caminho ficou aquela abstração que sempre fez confusão a alguns mitómanos, a que chamamos “direito internacional”, que obriga as nações a comportarem-se segundo regras acordadas. O direito, num sentido amplo, é um conjunto de leis que tem de existir para garantir que os elementos integrantes de uma sociedade ou um conjunto de nações coexistam em relativa harmonia, sem se desencadearem conflitos estéreis e despropositados por motivos mais ou menos fúteis ou pelo simples facto de, seja uma associação de bairro ou uma nação, terem tido o supremo azar de terem eleito um absoluto incapaz para gerir os seus destinos. E quando se desencadeiam conflitos, existem entidades para os dirimir e evitar que escalem. É assim na nossa vida em comunidade e é assim entre os países — tem de haver regras para que a coexistência seja possível. A alternativa é o caos, que é um dos sinónimos para  a “lei do mais forte”, que é ditada, entre as nações, pelo tamanho dos exércitos e dos arsenais convencionais e nucleares. “Eu ataco, eu conquisto, eu determino, eu ameaço porque posso e ninguém me pode deter” é o chavão deste caos nas relações internacionais e que é imposto por uma suposta força que apenas esconde a fraqueza de quem a dita. 

A União Europeia (UE) vai tentando manter-se unida dentro deste tumultuoso mar de incertezas. Primeiro, teve de lidar com o voltar de costas do seu maior aliado, os EUA, cujo presidente faz questão de destratar e ofender publicamente  a UE e muitos dos seus líderes. Se a memória e a honra ainda têm algum valor, será bom que estes tempos não se esqueçam por uma razão fundamental: Temos de ganhar rapidamente a consciência de que é necessária uma maior autonomia da UE, quer no plano económico, quer no plano energético, quer no plano militar. Mas para que isso aconteça, tem de se dar o passo seguinte nesta união de nações livres e democráticas que estão na mira de “inimigos” históricos e, até, de “amigos próximos” até há bem pouco tempo. Soa a isolamento? Não. Provavelmente isto soará, antes, a uma necessidade de fortalecer os nossos laços. E depressa.


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