menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Nunca estão satisfeitos

26 0
04.03.2026

1 - Em pouco mais de dois meses, o primeiro-ministro negou  por duas vezes a regionalização. A primeira foi no dia 14 de dezembro, no encerramento do XXVII Congresso da Associação Nacional de Municípios Portugueses. Perante os autarcas portugueses reiterou que este era um “tempo inadequado para esse avanço”. Isto dito quase 30 anos depois do referendo que colocou um ponto final naquele processo, mas que não fez dele um perpétuo tabu ou uma espécie de pecado original sem qualquer hipótese de redenção. O “tempo oportuno” é um daqueles conceitos vagos que nos permite adiar para as calendas todo o tipo de assuntos com os quais não queremos lidar. Portanto, o tempo oportuno pode ser “nunca”. A segunda vez que Luís Montenegro se pronunciou sobre esta questão foi na sexta-feira, na cerimónia de tomada de posse dos novos presidentes das cinco Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional. O regresso a este assunto por parte do primeiro-ministro é fácil de compreender. Depois dos cenários de tragédia que os temporais causaram, sobretudo na região Centro, muitas foram as vozes que se levantaram para alertar sobre a necessidade de se ter respostas mais rápidas e decisivas às populações e que tal só será possível com uma governação mais próxima e não estarmos sempre dependentes da reação dos poderes instalados em Lisboa. Segundo a Lusa, o primeiro-ministro diz querer «“levar até ao limite o potencial” do atual modelo das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), recusando começar já a pensar num próximo formato»  e que “este é o modelo em que acredito e o Governo acredita. É um modelo para levar à prática. Não estamos no tempo de andar sempre a discutir modelos.” De facto, 28 anos depois do referendo não é tempo para discutirmos estas coisas da descentralização até porque, no fim das contas, a consulta ao povo português foi recente e as coisas até têm corrido bem com o atual modelo de gestão do território. Então, no Interior, desde que se chumbou a regionalização e nos tiraram essa ameaça do horizonte, tudo tem funcionado com uma fluidez ímpar. Com o atual cenário demográfico e económico, com os exemplos de coordenação e resposta a catástrofes como incêndios florestais e cheias, quem é que precisa de novos modelos organizativos? Para quê mudar se tudo tem corrido tão bem ao logo das últimas décadas? E as coisas, acredite-se ou não, ainda podem melhorar. Citando novamente o primeiro-ministro: “ainda não testámos o verdadeiro alcance, consequência e resultado dos modelos que, estruturalmente e legitimamente, se definem e, muitas vezes, distraímo-nos a pensar como é que podiam ser, como é que deviam ser, como é que podiam ter sido lá atrás e como é que podem ser daqui a muito tempo”. É preciso, de facto, sermos mal-agradecidos! Como é que nos atrevemos a pensar em modelos alternativos, já testados e implementados com sucesso há décadas em muitos países da Europa, quando ainda podemos levar ao limite os maravilhosos modelos que tanta alegria têm dado ao Interior?

2 - António José Seguro toma posse, na segunda-feira, como Presidente da República. É o início de um ciclo de cinco anos de mais um beirão a ocupar o mais alto cargo da nação, depois de António Ramalho Eanes ter estado em Belém entre 1976 e 1986. Ao novo Presidente da República, muita sorte. Porque a sorte dele será, também, em parte, a sorte dos portugueses.


© Jornal do Fundão