menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A primavera de Diamantino Gonçalves

9 0
yesterday

É impossível olhar para estes campos em flor e não nos lembrarmos de Diamantino Gonçalves. Na lente do fotógrafo, nada se aprisionava e tudo se emancipava, multiplicando-se em todas as tonalidades possíveis que só um mundo maravilhoso e utópico nos pode oferecer. A construção de um novo mundo a partir da aparente simplicidade que nos rodeia só era possível porque ele tinha o dom do amor e da gratidão por cada centímetro deste chão e por cada um dos que o pisa. Não só aqueles que habitam os palcos, mas, sobretudo, os que têm as mãos calejadas pelo amanho da terra, os que transportam consigo as sabedorias ancestrais do saber cultivar, do tecer, do cuidar dos animais, do saber acender um forno a lenha, da mestria no uso dos temperos que tornam a gastronomia única e irrepetível. A primavera do mestre Diamantino Gonçalves era feita de muitas paisagens e  de muitas pessoas; era uma palete interminável onde se conjugava a presença humana e a terra que nos abraça e desafia. É por isto que quando olho para estes cerejais em flor me lembro do mestre. Sinto a falta do seu telefonema para combinar aquela página cheia de fotografias das cerejeiras em flor com que o JF celebrava anualmente a primavera, feita de um raide oportuno pelas encostas da Gardunha. Nem uma edição antes, nem uma edição depois; era naquele preciso ponto que o mestre ditava que a primavera era mais ostensiva, que as flores alvas mais resplandeciam sob a luz. Faz falta o Diamantino que nos sabia ler como ninguém. Faz falta aquele carinho impagável pela imponente árvore, pela montanha sobranceira e pela abelha que pousa levemente numa pétala. Faz falta o mestre neste despontar de mais uma primavera, enquanto o mundo vai caminhando no trilho do ódio, num processo de morte e autodestruição. Falta-nos aquela certeza de que nos podemos salvar abraçando as pequenas coisas que nos rodeiam e que sempre tomamos como certas ao ponto de, tantas vezes, as ignorar. Falta a esperança, falta a paciência para saber ouvir os outros, os mais velhos, os que têm alguma coisa para nos ensinar para lá das banalidades e artificialidades vomitadas na espuma dos dias. E esta é a nossa única forma de viajar no tempo: ter o discernimento de ouvir quem de outros ouviu o porquê das coisas. 

Nesta edição não teremos o desfile da primavera pelas encostas da Gardunha, serra que veneramos, mas tantas vezes maltratada. Apesar disso, da nossa incapacidade de a tratarmos como ela merece, não deixa de nos surpreender ano após ano, mesmo fragilizada por sucessivos incêndios que deveriam envergonhar quem, ano após ano, garante que tudo se fará para que não se repitam. É tempo de sabermos aproveitar essa benesse; a primavera que se faz anunciar em cada uma das flores de uma cerejeira, em cada malmequer, em cada folha dos castanheiros e dos carvalhos que ainda resistem de pé a tanto e consecutivo infortúnio. É tempo de fazermos aquilo que o mestre Diamantino Gonçalves nos ensinou, não por decreto ou proclamação, mas pelo exemplo: sair à rua e amar o que  a fortuna nos entregou — este chão, estas serras, estas gentes. É tempo de celebrarmos os pormenores que compõem este complexo universo a que chamamos Gardunha, a que chamamos Beira, e que reclamamos como nossas. Este ano não temos fotografias da primavera do mestre, mas podemos viver a primavera como ele. Vamos celebrá-la e, com ela, o mestre.


© Jornal do Fundão