Viver como se não
“No primeiro dia em que tive de limpar o rabo ao meu pai, menti para mim mesma, dizendo que era igual a quando limpava o rabo do meu filho. (…) Mas não. Não é a mesma coisa.”
Este é o início de Los Siguientes, de Pedro Simón. E é a segunda vez que escrevo sobre este autor. Gosto muito da forma como escreve — apesar de ser das coisas mais duras que tenho lido. Há qualquer coisa de masoquista na experiência: dou por mim a pausar a leitura, a respirar fundo, a preparar-me para o que aí vem. A ganhar fôlego.
Los Siguientes encerra a “Trilogia da Família”, depois de Los Ingratos e Los Incomprendidos. É um romance sobre essa passagem quase impercetível entre gerações: sobre a mão que um dia nos segurou e que, décadas depois, somos nós a segurar. Sobre o momento em que começamos a reconhecer nos nossos pais aquilo que, até então, nos parecia impossível imaginar — a nossa própria fragilidade.
“O que dá medo é ter diante de ti o spoiler do que acabarás por ser”, diz o autor.
Quando somos crianças, a morte é algo demasiado distante para se levar a sério: “há muitos à nossa........
