Desorbanização da Hungria
Um regime idolatrado por nacionalistas populistas poderá estar prestes a ruir. A Hungria tem uma população inferior à da Bélgica e o seu PIB equivale a apenas 1,1% do da União Europeia (UE) - Portugal pesa 1,6% -, mas o país representa riscos reais para o modelo tradicional de democracia.
Desde que chegou ao poder, em 2010, Viktor Orbán neutralizou a Justiça e cooptou instituições. Este percurso ignora o esforço envidado para a adesão ao bloco europeu em 2004, quando a Hungria teve de reverter um historial de nacionalizações e dirigismo estatal para abraçar a economia de mercado. Desde 2010, o cenário inverteu-se: Budapeste contesta as regras orçamentais de Bruxelas e até tem fundos europeus congelados por suspeitas de corrupção e violações do Estado de direito.
Poucos anos após a subida de Orbán ao poder, visitei a Hungria e o sentimento anti-UE era bem palpável. O cariz dessa contestação assemelhava-se ao tom britânico pré-Brexit: o desejo de pertencer ao clube, sem a disposição para aceitar as diretrizes de Bruxelas. O nacionalismo revitalizador era visível até nos cartazes expostos na rua: "Aqui, mandam os húngaros". A propaganda política tinha dois alvos: o povo, fustigado por décadas de regime pró-soviético e posterior governação de Esquerda assente na estatização; e, por outro lado, os "inspetores da UE", confrontados com esta retórica ao circularem pelas ruas de Budapeste.
Orbán não é uma ilha na UE. O PiS (Lei e Justiça) governou a Polónia durante oito anos, asfixiando liberdades até à sua derrota recente. Trump, com o apoio de JD Vance, tenta manter o seu aliado europeu, mas as perspetivas para as legislativas de dia 12 são sombrias para o atual Governo. A renovação do regime, pela mão de Péter Magyar e do partido Tisza, parece cada vez mais provável. Argumentos não lhe faltam: inflação galopante e crescimento económico anémico, a par dos sucessivos atentados ao Estado de direito.
