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Transformar presença em propósito

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24.04.2026

O país já viu demasiadas vezes a política confundir-se com catarse, pelo que assistir ao regresso de Pedro Nuno Santos à vida política após dois "imensos" meses de ausência não implica aplaudir a sua pressa. Entre o silêncio cúmplice e o estrondo vingativo, existe um território mais exigente: o da responsabilidade. É aí que se mede a diferença entre voltar e avançar. Para já, o seu regresso ao Parlamento foi apenas uma regressão com bastante por contar, mas que quis ser, simultaneamente, o reencontro esperado e a descarga eléctrica.

Convém não confundir regresso com "revanche". Ao elogiar José Luís Carneiro pela frontalidade de 2023 e, no mesmo fôlego, apontar aos que "esperam atrás da porta", Pedro Nuno não se limita a marcar posição. Quando é José Luis Carneiro que propala a inexistência de oposição no PS, a ironia maior reside na coincidência temporal: enquanto o PS se permite liderar sondagens, Duarte Cordeiro opta por um elegante recuo, afastando-se da Comissão Política do partido numa forma peculiar de participar. Sai para dentro, ausenta-se para marcar presença num partido que ganha fôlego, escolhendo a margem num exercício de cálculo que o próprio líder do Partido Socialista insiste em negar.

E depois há o espelho inevitável à direita. O regresso de Pedro Passos Coelho, pairando sobre Luís Montenegro como sombra comprida ao fim da tarde, oferece a comparação e o mote. Também ali se ensaia o regresso como argumento político, como lembrete de uma autoridade passada que insiste em não abdicar. Passos Coelho e Pedro Nuno, ambos aparentemente proscritos pelo povo. Mas se Passos regressa para suceder, Pedro Nuno parece regressar para ajustar contas, quando o Parlamento não precisa de contas antigas saldadas em praça pública, mas sim de clareza, de propostas e visão de futuro.

Regressar com voz é o mínimo exigível a quem nunca foi propriamente dado ao silêncio. O problema é regressar como se o tempo de ausência tivesse sido um ensaio para a ruptura, com frases de combate e com estrondo, com um alvo difuso a que chamou "tacticistas", essa categoria tão útil quanto elástica, onde cabe sempre o adversário mais próximo, ainda que seja agora Cordeiro e não Carneiro. A política raramente recompensa quem confunde presença com ajuste de contas. Mas nada disto invalida o essencial: o regresso de Pedro Nuno Santos é politicamente relevante e até necessário. Para já, ficámos pelo ruído. O resto, como sempre, dependerá da capacidade de transformar presença em propósito.

*O autor escreve segundo a antiga ortografia.


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