As fotos de Rosalía que não viu
Nunca houve tanta liberdade para produzir e partilhar imagens, mas também nunca houve tanto controlo sobre as fotografias que de facto procuram registar e documentar um momento importante. Esta contradição, num tempo em que às vezes é difícil distinguir a realidade da manipulação e a verdade da mentira, ficou bem evidente nos dois concertos que a carismática Rosalía deu em Lisboa. Quem gera a imagem da artista catalã decidiu que os repórteres fotográficos não poderiam registar um único instante do espetáculo. Já foi assim durante outras atuações incluídas na tour, já foi assim com outros artistas.
As imagens que vimos ou vamos ver dos concertos de Rosalía têm, assim, duas origens. Ou foram tiradas por um fotógrafo oficial, e depois distribuídas pelos órgãos de Comunicação Social, ou foram capturadas e partilhadas pelo público. Os fãs inundaram as redes sociais com vídeos, selfies e excertos do concerto, mas os fotojornalistas viram-se impedidos de cumprir o seu papel!
Criam-se, pois, duas narrativas distintas. Uma cuidadosamente controlada pelos promotores, que decidem o que é visível, como e quando, e outra, a construída pelos fãs nas redes sociais, fragmentada e fugaz. Portanto, nenhuma destas narrativas é independente e gerada por quem fotografa não para alimentar marketing ou algoritmos, mas, sim, para documentar um acontecimento de forma profissional.
Além da discussão sobre o direito de profissionais devidamente credenciados registarem eventos públicos de forma independente, vale, sobretudo, refletir sobre a realidade que nos é imposta. Vivemos cercados de câmaras, mas, na verdade, vemos apenas aquilo que alguém decidiu deixar ver. Num concerto ou noutro acontecimento qualquer.
