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A palavra do Papa

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23.04.2026

Na viragem destes tempos de guerra, o Papa Leão XIV decidiu usar a força moral e ética da sua palavra para apelar à paz. Nada de anormal nesta posição. Todos os seus antecessores tomaram idêntica atitude a propósito de outros conflitos, tendo mesmo o Papa Paulo VI, na sua encíclica "Populorum Progressio", afirmado que "o novo nome da paz é o desenvolvimento".

Talvez pelo facto do Papa Leão XIV ser de origem norte-americana levou o presidente dos Estados Unidos, acompanhado pelo seu vice-presidente, a tecer comentários sobre a intervenção do Papa que podemos considerar como pouco razoáveis.

Esta reação absurda não podia deixar de nos chocar a todos nós. Desde logo porque o Papa, além de ser o chefe da Igreja Católica, é um chefe de um Estado - a Santa Sé. No plano diplomático, devia existir algum recato, mas também sabemos que isso não é um entrave para a atual Administração norte-americana.

Como principal figura da Igreja Católica, Leão XIV está preocupado em adaptar a mesma aos novos desafios da nossa época. Um Papa que é diferente dos seus antecessores sem romper com eles.

Depois da reforma de João XXIII, da continuação por Paulo VI, viveu com João Paulo II uma profunda intervenção política com o seu célebre apelo aos compatriotas polacos para que "não tenham medo". Essa Igreja teve depois com Bento XVI a seiva intelectual que lhe estava a faltar e, finalmente, com Francisco a ideia de proximidade e inclusão com o seu famoso "todos, todos, todos".

Leão XIV não esconde ao que vem. Com uma postura sóbria, tem sabido dizer presente quando é importante. Na reconciliação da Igreja Católica com outras religiões ou ao escolher África para as suas últimas visitas. No seu apelo, a palavra paz tem procurado alertar os líderes mundiais de que a guerra não pode ser uma solução para os problemas. Trump parece querer fazer a sua religião onde ele é o Deus que tudo decide, Leão XIV quere dizer, neste momento, que a esperança da paz e o respeito do direito internacional são valores fundamentais para o seu papado no cumprimento da missão dos Evangelhos.

O tempo parece querer dar razão aos que defendem que os EUA parece que estão a cair na armadilha de Tucídides enquanto a potência emergente (China) vai fazendo o seu caminho das pedras.

Nunca uma palavra de um Papa provocou tanta perturbação em líderes políticos. Mesmo quando JD Vance vem lembrar que o Papa se deve preocupar com o interior da Igreja, esquece que mais do que nunca a Igreja tem enfrentado os seus fantasmas com a responsabilidade que lhe está inerente.

Por isso, a palavra do Papa para ser ouvida precisa de estar imaculada e credível.


© Jornal de Notícias