O estado da política para lá da política do Estado (II)
As grandes transições - climática e energética, ecológica e alimentar, tecnológica e digital, demográfica e migratória, geopolítica e securitária, social e cultural - têm um impacto estrutural profundo, cujas consequências começam, agora, a ficar mais visíveis na vida quotidiana. Cada uma destas transições tem um ciclo de impacto de duração variável e uma estrutura de custos associada complexa. Falamos de custos de contexto, formalidade e administração, organização e transação, de efeitos externos negativos, coberturas de risco, custos económicos de oportunidade e custos de informação e comunicação. Ou seja, as grandes transições em curso conduzem-nos até à governação de sociedades complexas, se quisermos, a uma mudança paradigmática de sociedade.
Por todas as razões que enunciámos no primeiro artigo, a democracia representativa é uma condição necessária, mas já não é uma condição suficiente para nos conduzir tranquilamente até ao futuro. Devido à intermitência, inconsistência e descontinuação de sucessivos governos de coligação interpartidária, ela é cada vez mais lenta e inconsequente nos seus procedimentos de concertação, legitimação, regulação, execução, validação e comunicação, pelo que precisa, urgentemente, de ensaiar a transição para procedimentos mais ágeis e eficazes de democracia participativa, colaborativa e consultiva, onde uma prospetiva responsável ocupe um lugar de maior relevância. Dito isto, como vamos construir politicamente a nossa responsabilidade coletiva perante o futuro, ou seja, como vamos repolitizar o futuro, sabendo nós que a nossa competência imediata é, apenas, uma face do problema, os limites da nossa responsabilidade, a outra face, e que a política nova consiste, justamente, em reforçar e reinventar a nossa capacidade coletiva de antecipação e reconfiguração perante o futuro?
No atual contexto, as tendências, as previsões e os cenários tomaram conta da prospetiva. Este facto significa que o saber se tornou, também ele, incerto, pelo que, doravante, passa a ser, igualmente, objeto da política e saber que grau de incerteza é aceitável é uma questão eminentemente política. Não surpreende, pois, que perante a certeza decrescente estejamos a passar gradualmente das soluções para os processos e procedimentos de lidar com a incerteza. Ora, a repolitização do futuro é, justamente, o regresso à reconexão e agregação dos interesses que a sociedade contém. Sentemo-nos, portanto, todos à volta da mesma mesa circular e não esqueçamos que o fim da política é o fim da democracia. E o fim do futuro. Por isso, a antecipação face ao........
