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Os veículos seminovos elétricos entram no jogo para valer

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20.02.2026

O mercado americano começou 2026 com um sinal que merece atenção no Brasil. O seminovo elétrico deixou de ser vitrine de nicho e passou a disputar comprador na lógica mais poderosa do varejo automotivo: preço de entrada e custo mensal de uso. Em vários recortes, a diferença para modelos a combustão encolheu de forma relevante e, em alguns casos, virou vantagem do elétrico. 

Para investidor e operador do setor, o ponto não é ideológico. É econômico. Quando o usado elétrico aproxima o ticket de compra do usado a combustão, a decisão do consumidor sai do campo da curiosidade tecnológica e entra na matemática do orçamento doméstico.

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A mudança não veio de um único fator. Ela é resultado de uma combinação de oferta, depreciação e ajuste de risco na cadeia.

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Primeiro, aumentou a oferta de usados elétricos. Parte vem de renovação de frota, parte vem de veículos que entraram no mercado novo com descontos agressivos nos últimos ciclos e agora retornam ao canal de seminovos. Segundo, a depreciação de vários elétricos foi mais forte que a dos equivalentes a combustão, comprimindo o preço de revenda e abrindo janela para o segundo comprador. Terceiro, com mais histórico de uso, o mercado começa a precificar bateria e autonomia com menos ruído e mais método, reduzindo incerteza para lojista, financeira e cliente final. 

Em termos de cadeia de valor, isso desloca margem. O ganho potencial sai do spread inflado de venda e migra para execução: compra certa, giro, financiamento aderente ao risco real, garantia bem estruturada e pós venda capaz de sustentar confiança.

Nos Estados Unidos, o monitor de janeiro de 2026 da Cox Automotive aponta preço médio de anúncio do usado elétrico em US$ 35.442, queda de 5,1% em 12 meses e redução importante do prêmio sobre veículos equivalentes não elétricos para US$ 1.376, após US$ 2.591 em dezembro. Em outras palavras, o gap de preço está se fechando rápido. 

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No fim de 2025, as transações de usados elétricos também mostraram tração. Segundo dado reportado com base na Cox, quase 89 mil unidades trocaram de mãos no quarto trimestre, alta anual de 13,5%, com giro próximo de 50 dias, levemente melhor que o de carros a combustão. 

No Brasil, a base de eletrificados continua crescendo e alimenta o futuro funil de seminovos. A ABVE reportou 223.912 eletrificados leves vendidos em 2025, avanço de 26% sobre 2024, com participação de 9% no mercado total de leves no ano. Isso não significa paridade imediata no usado, mas sinaliza volume suficiente para uma segunda onda de oferta nos próximos ciclos. A Localiza&Co, líder em soluções de mobilidade na América Latina, com uma frota de mais de 630 mil veículos, e a BYD, a maior fabricante global de veículos elétricos, anunciaram um acordo estratégico no Brasil que representa um marco histórico na evolução do mercado automotivo do país. O acordo prevê a compra de 10 mil veículos híbridos e elétricos nos próximos 02 anos. 

O primeiro impacto tende a ser na formação de preço dos seminovos eletrificados. Com mais unidades chegando, a precificação precisará ficar mais granular por saúde de bateria, quilometragem, software embarcado e liquidez regional.

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O segundo impacto é em crédito. Financiamento de usado elétrico ainda carrega prêmio de risco implícito em parte dos originadores. Quem modelar melhor residual e risco técnico pode ganhar conversão e margem ajustada ao risco.

O terceiro é no estoque das redes. Concessionárias e grupos que dominarem triagem técnica de bateria, compra orientada por giro e política de garantia vão capturar produtividade. Quem tratar todos os elétricos como uma única categoria tende a errar preço e tempo de pátio.

O quarto impacto recai sobre locadoras e montadoras. Locadoras influenciam a oferta futura de seminovos e podem acelerar ou frear esse mercado conforme estratégia de desmobilização. Montadoras, por sua vez, podem responder com mais incentivo no zero quilômetro, o que altera imediatamente o residual do usado.

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Num mercado em que o seminovo elétrico passa a competir por preço total de uso, tendem a ganhar os operadores que compram com disciplina de dados, giram rápido, estruturam garantia e pós-venda técnico, e as financeiras que calibram risco por modelo, versão e condição real de bateria; na outra ponta, perdem espaço as operações que precificam por referência genérica, dependem de margem unitária alta com baixa rotação, mantêm política de crédito indiferenciada e não entregam transparência técnica ao comprador, porque esse conjunto normalmente erra o ponto de compra, alonga tempo de pátio, comprime margem e reduz conversão.

Informações Para Monitorar

Diferença entre preço pedido e preço efetivo de transação em elétricos usados.

Dias de estoque por faixa de autonomia e por marca.

Curva de aprovação de crédito e taxa média no usado elétrico versus combustão.

Relação entre desconto no zero quilômetro e pressão sobre residual do seminovo.

Indicadores de saúde de bateria incorporados na negociação e no laudo.

Participação de eletrificados no mix total de usados das redes e plataformas.

O seminovo elétrico está deixando de ser um tema de tendência para virar tema de execução operacional e alocação de capital. O recado para o Brasil é claro: o crescimento do zero quilômetro eletrificado de hoje prepara um mercado secundário maior amanhã. 

Nesse cenário, valor não será conquistado por quem fizer discurso melhor sobre tecnologia. Será capturado por quem precificar melhor risco, girar estoque com disciplina e integrar venda, crédito e pós venda com dados reais de transação. A oportunidade existe, mas ela é seletiva. E, como quase tudo no automotivo, remunera método antes de narrativa.


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