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O financiamento de veículos avança, mas o limite pode estar mais perto do que parece

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27.02.2026

O mercado automotivo brasileiro entrou em 2026 com um sinal curioso e, ao mesmo tempo, preocupante. O financiamento de veículos continua crescendo para pessoa física, inclusive em ritmo recorde, apesar de juros ainda muito altos, inadimplência elevada e renda já bastante comprometida. Esse é o tipo de movimento que sustenta vendas no curto prazo, mas levanta dúvidas sobre a duração do ciclo. 

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No encontro do MegaFórum Automotivo de fevereiro, a provocação foi feita de forma direta ao mencionar a dificuldade de imaginar essa dinâmica se sustentando no curto e médio prazo, com risco de “estouro de bolha” em algum momento. Isso é relevante para investidores e operadores do setor porque crédito é o principal motor de volume no varejo automotivo brasileiro. Quando ele acelera demais, a cadeia inteira reage. Quando freia, a correção costuma ser rápida. 

O ponto central não é apenas o crescimento do financiamento. É a qualidade desse crescimento.

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Segundo o MegaForum Automotivo, a concessão em reais até dezembro cresceu 5,6% na pessoa física frente a 2024, enquanto caiu 4,3% na pessoa jurídica. No recorte de dezembro contra dezembro, a pessoa física avançou 24%, ao passo que a PJ permaneceu em queda. Em outras palavras, o crédito que está empurrando o mercado vem do consumidor final, não das empresas. 

Isso muda o mecanismo econômico da cadeia. Crédito PF mais forte sustenta varejo, acelera giro de usados, ajuda montadoras a escoar produção e preserva receita de concessionárias. Mas também eleva risco sistêmico se esse crescimento vier com piora de qualidade, especialmente com inadimplência alta e juros pesados. A inadimplência está em 5,6% na PF e 3,7% na PJ, em patamar considerado elevado. As taxas de juros também seguem muito altas, em 26,4% ao ano para PF e 18,4% ao ano para PJ, entre as maiores da série histórica, ainda que com sinal inicial de alívio por conta da curva futura. 

Há um segundo bloco de evidências que reforça a tese de atenção.

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O cenário macro é de transição, não de euforia. A leitura para 2026 indica PIB em torno de 2%, IPCA perto de 4% e Selic projetada em 12,75% no fim do ano, com início de cortes já no primeiro trimestre. Isso ajuda a explicar por que o crédito ainda cresce, mas não elimina o risco de execução no meio do caminho, especialmente com o ruído fiscal e eleitoral pressionando prêmio de risco e custo de capital. 

O mercado de veículos leves, projeta 2,65 milhões de unidades em 2026, alta de 3,9% sobre 2025. O dado importante é a composição. A previsão considera 49% para varejo e 51% para corporativo, mas o próprio material aponta excesso de oferta potencial de 212 mil unidades com base nos objetivos de volume das montadoras. Esse é um número grande demais para ser ignorado. Excesso de oferta com crédito mais frágil costuma virar desconto, pressão de margem e maior dependência de financiamento promocional. 

Há um componente jurídico-operacional que ficou mais relevante e que o mercado ainda está digerindo. A recuperação da garantia em contratos de alienação fiduciária passou a depender de um rito extrajudicial com papel central dos cartórios, o que aumenta formalidade, etapas e custo de execução. Em um ambiente de inadimplência elevada, isso pesa no modelo de risco dos bancos. O efeito é conhecido: crédito mais seletivo, taxa mais alta e menor fôlego para sustentar crescimento por volume.

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Além disso, janeiro já trouxe sinais mistos. A indústria total caiu forte contra dezembro, movimento sazonal, mas ficou acima de janeiro do ano anterior. O canal varejo respondeu por 58,8% e o corporativo por 41,2% no acumulado inicial, o que reforça a relevância do consumidor financiado para sustentar o ritmo. 

Se o financiamento PF continuar crescendo nesse formato, o impacto imediato tende a ser positivo em volume e negativo em qualidade de margem.

Para o varejo, mais crédito significa mais fluxo, mais trade-in, maior giro de usados e mais oportunidades de F&I. Mas também significa maior sensibilidade a atraso de pagamento e necessidade de aprovação agressiva. O MegaForum indicou margens apertadas em novos, com leves entre 4,6% e 5,9%, e competição de preços já intensa. Isso é típico de mercado sustentado por volume e não por pricing power. 

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Nos usados, o efeito pode ser ainda mais relevante. A expectativa de maior liquidez em ano eleitoral, especialmente na base da renda, o que tende a beneficiar seminovos e usados. Se isso vier junto com crédito mais restrito, o setor pode migrar parte da demanda para produtos de menor ticket, consórcio e prazos mais longos. É um ambiente bom para giro, mas desafiador para qualidade de carteira. 

Para montadoras e locadoras, o ponto crítico é a combinação entre oferta e custo de capital. Se a demanda precisar de muito incentivo financeiro para absorver a produção, a conta aparece em descontos, subsídios e compressão de margem na rede. E com um cenário fiscal mais sensível em 2026, o custo do dinheiro pode oscilar mais do que o mercado gostaria. 

Potenciais vencedores, nesse quadro, são concessionárias disciplinadas em crédito e estoque, operações fortes em usados e pós-venda, financeiras com boa gestão de risco, plataformas de avaliação e precificação, e modelos de mobilidade de ticket menor, como motos e consórcio, que ganham relevância quando o crédito tradicional aperta. Potenciais perdedores são operações dependentes de volume com margem curta, estoques longos e baixa capacidade de filtrar risco, além de quem apostar em crescimento apenas via taxa promocional sem controle de inadimplência e recomposição de margem. 

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A leitura estratégica do CarInvest é objetiva. O financiamento de veículos está sustentando o mercado agora, principalmente na pessoa física, mas o ciclo parece mais frágil do que o volume sugere. Crescer com inadimplência alta e juros elevados é possível por algum tempo, mas não indefinidamente.

O investidor e o executivo do setor precisam olhar menos para o número de emplacamentos isolado e mais para a qualidade do motor que está puxando esse crescimento. Em 2026, a diferença entre expansão saudável e correção de mercado estará na combinação de crédito, margem e disciplina de estoque. É aí que a próxima semana começa a ser decidida.   


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