“Tristão e Isolda” no Municipal de SP: histórico!
“[…] O verdadeiro opus metaphysicum de toda arte, obra sobre a qual repousa o olhar alquebrado de um moribundo com sua aspiração muito doce e insaciável aos mistérios da noite e da morte, bem longe da vida que ilumina o mal, o engano e a separação com uma clareza matinal e uma crueza terrível e fantasmagórica.” (Friedrich Nietzsche, sobre Tristão e Isolda, em Wagner em Bayreuth)
Ontem, 29 de julho, estive no Theatro Municipal de São Paulo para assistir ao retorno da montagem de uma das obras-primas wagnerianas, após 48 anos. Tristão e Isolda, sua melodia infinita e seu canto vigoroso exigem tanto dos músicos e dos cantores que é sempre um desafio encará-la. E, obviamente, as mais de quatro horas de duração também são um tanto exigentes para o público. É preciso estar muito disposto – ou gostar muito de Wagner – para suportar tamanho esforço. Porém, a recompensa é certa.
Num artigo escrito em 2020, no qual escrevo longamente sobre minha profunda admiração por Wagner – de modo que não me deterei em aspectos biográficos aqui –, falo de seu desejo por “resgatar a sua querida Alemanha dos descaminhos modernos – através de um método que considero absolutamente apropriado: a reformação da imaginação moral pela arte”. Mas que, “influenciado pelas ideias controversas de filósofos como Ludwig Feuerbach e Arthur Schopenhauer, bem como pelos ideais revolucionários de Bakunin e Proudhon (Marx nunca foi citado por Wagner)”, cometeu “erros grosseiros de interpretação da própria realidade, e caiu em delírio ideológico”.
Seu antissemitismo, tão mencionado quanto (não raro) reduzido a uma rotulação fora de contexto, quase não dialoga com sua obra, que pode ser vista como um esforço de recuperar o sentido moral da tragédia grega para os tempos modernos. Em O Nascimento da Tragédia, obra que dialoga diretamente com Wagner, Nietzsche afirma: “que ninguém tente enfraquecer a nossa fé em um iminente renascimento da Antiguidade grega; pois só nela encontramos nossa esperança de uma renovação e purificação do espírito alemão através do fogo mágico da música”. Tristão e Isolda é o ápice disso. Não à toa, é a única obra de Wagner citada por ele em seu ensaio.
É preciso estar muito disposto – ou gostar muito de Wagner – para suportar “Tristão e Isolda”, com mais de quatro horas de duração. Porém, a recompensa é certa
É preciso estar muito disposto – ou gostar muito de Wagner – para suportar “Tristão e Isolda”, com mais de quatro horas de duração. Porém, a recompensa é certa
Quando, em 10 de junho de 1865, Tristão e Isolda estreou em Munique, o público se deparou com uma obra que parecia romper as próprias regras da ópera. Wagner abandonou a sucessão tradicional de árias, duetos e grandes coros para construir um fluxo musical praticamente ininterrupto, em que a orquestra deixa de........
