Esperando Gonet
Li outro dia na “Folha de S.Paulo” um artigo da colunista Lygia Maria sugerindo que esperar alguma ação do Procurador Geral da República Paulo Gonet em meio à crise que corrói o país é como esperar Godot. Ela fazia referência à famosa peça de Samuel Beckett, “Esperando Godot”. Neste clássico do Teatro do Absurdo, dois personagens, Vladimir e Estragon, passam a peça inteira aguardando inutilmente a aparição de Godot. Como exercício criativo, segue uma hipotética peça “Esperando Gonet”, tal como Beckett a teria escrito hoje.
Esperando GonetDiálogo em um ato
Personagens:Vladimir – um homem cansado, mas persistente.Estragon – seu companheiro, cético e irônico.
Cenário:Uma praça vazia. Um poste de luz. Ao fundo, o ruído distante de uma televisão transmitindo um debate entre parlamentares. Vladimir está sentado em um banco, olhando o celular. Estragon anda em círculos.
Vladimir: Disseram que sim.
Estragon: Disseram ontem também.
Vladimir: Ontem era cedo.
Estragon: Hoje também é.
Vladimir: Hoje pode ser diferente.
Estragon: Sempre dizem isso.
Estragon: O que ele faria se viesse?
Vladimir: Como um procurador-geral.
Estragon: Mas o que ele poderia fazer?
Vladimir: Questionar formalmente atos do STF. Abrir investigações contra autoridades. Pedir abertura de inquéritos. Oferecer denúncias. Pedir medidas cautelares.
Estragon: Você tem uma imaginação admirável.
Estragon: Faz quanto tempo que estamos esperando?
Vladimir: Desde o início da crise.
Estragon: Qual delas?
Vladimir: Esta que estamos atravessando.
Estragon: Mas já tivemos umas cinco “estas”.
Vladimir: Esta é a definitiva.
Estragon: Todas são definitivas até a próxima.
Estragon: E este silêncio?
Estragon: Está ensurdecedor. Ele não vai fazer nada?
Vladimir: Acho que não.
Estragon: Não vai abrir uma investigação? Mandar apreender celular do ministro?
Estragon: Nem soltar uma nota?
Vladimir: Nem uma vírgula.
Estragon: Nem um gesto?
Vladimir: Talvez um aceno burocrático.
Vladimir: Para o sistema?
(Começa a ventar. Um jornal amarrotado rola pela praça.)
Estragon: A crise só piora. As evidências se acumulam. As denúncias se empilham. As instituições balançam.
Estragon: E o procurador...
Vladimir: Ele também espera, como nós.
Estragon: Espera o quê?
Estragon: O momento perfeito?
Estragon: Ah. O momento perfeito. Esse grande refúgio...
Vladimir: Você é injusto.
Estragon: Sou realista.
Vladimir: Investigações levam tempo mesmo.
Estragon: Sim. Às vezes duram anos.
(Estragon pega o celular de Vladimir.)
Estragon: Vamos dar uma olhada.
Estragon: Nas notícias.
Não é medo nem prudência. É a velha tentação brasileira: a de não fazer nada, até que seja tarde demais
Estragon: Mais detalhes do escândalo aqui. Novas matérias sobre o Banco Master. Prints de conversas sobre uma tal de peleleca. Mais denúncias contra os ministros. Parlamentares de oposição protestando nas redes sociais. Jornalistas da grande mídia mudando de lado sem a menor vergonha. Suspeitas sobre crime financeiro envolvendo aquele resort… Como é mesmo o nome?
Estragon: Isso. Todos os dias aparece algo novo.
Vladimir: Piscinas infinitas. Helipontos discretos. Hóspedes seletos.
Estragon: Muito seletos.
Estragon: Também falam do contrato.
Vladimir: Qual deles?
Estragon: O de 129 milhões.
Estragon: Serviços estratégicos.
Vladimir: Tudo é estratégico hoje em dia.
Estragon: Sempre aparece dinheiro. Sempre aparecem contratos. Sempre aparecem resorts.
Estragon: Muitas festas.
Vladimir: Festas animadas.
Estragon: Festas inesquecíveis.
(Estragon continua rolando a tela do celular.)
Estragon: Aqui tem uma matéria inteira sobre as festas.
Estragon: Parece que eram lendárias.
Vladimir: Com música?
Estragon: Com música, bebida, convidados influentes…
Vladimir: E outras coisas.
Estragon: Muitas outras coisas.
A terceirização da política foi um desastre
A hipertrofia do Judiciário cobra seu preço
Estragon: Nada ainda.
Vladimir: Talvez ele esteja preparando algo grande.
Vladimir: Algo monumental.
Vladimir: Preparando um gesto histórico.
Vladimir: Uma investigação devastadora.
Vladimir: Ou talvez ele esteja apenas esperando.
Estragon: Esperando o quê?
Vladimir: Que tudo se resolva sozinho.
Estragon: Ou que tudo seja abafado. Não seria a primeira vez.
Estragon: Você acha que ele tem medo?
Estragon: É prudência?
Vladimir: Também não.
Vladimir: Então o quê?
Estragon: A velha tentação brasileira.
Estragon: A de não fazer nada até que seja tarde demais.
(Um carro passa ao longe. Ouve-se a sirene de uma ambulância.)
Estragon: O país está agitado.
Estragon: Parlamentares brigando na televisão.
Vladimir: Jornalistas enxergando subitamente coisas que até ontem não enxergavam.
Estragon: Áudios vazando. Desmentidos que não param em pé.
Vladimir: E o procurador...
Vladimir: Lembra quando disseram que as instituições estavam funcionando?
Vladimir: Talvez estejam.
Estragon: Funcionando como? Em câmera lenta?
Vladimir: Como então?
Estragon: Funcionando como um teatro.
Estragon: Onde todos sabem o roteiro, mas fingem surpresa.
Vladimir: Talvez ele ainda faça alguma coisa.
Vladimir: E se ele vier amanhã?
Estragon: Amanhã ele resolverá tudo?
Vladimir: Pode começar a resolver.
Estragon: Amanhã tudo sempre pode começar.
Vladimir: Você perdeu a esperança.
Estragon: Eu a terceirizei.
Estragon: Para quem deveria agir.
Vladimir: Isso resolve alguma coisa?
Vladimir: Então por que esperar?
Estragon: Porque alguém precisa esperar.
Estragon: Para lembrar que alguém deveria ter vindo.
Vladimir: Você acha que ele sabe que estamos esperando?
Estragon: Acho que isso não muda nada.
(Os dois ficam em silêncio. O céu escurece.)
Vladimir: Vamos embora?
Estragon: Não podemos.
Estragon: Estamos esperando.
Vladimir: Esperando o que exatamente?
Estragon: Que alguém faça o que deveria ter feito.
Vladimir: E se ninguém fizer?
Estragon: Então continuaremos esperando.
Vladimir: Até quando?
Vladimir: Então ficamos?
(As luzes diminuem lentamente. Vladimir e Estragon não se movem.)
