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Esperando Gonet

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10.03.2026

Li outro dia na “Folha de S.Paulo” um artigo da colunista Lygia Maria sugerindo que esperar alguma ação do Procurador Geral da República Paulo Gonet em meio à crise que corrói o país é como esperar Godot. Ela fazia referência à famosa peça de Samuel Beckett, “Esperando Godot”. Neste clássico do Teatro do Absurdo, dois personagens, Vladimir e Estragon, passam a peça inteira aguardando inutilmente a aparição de Godot. Como exercício criativo, segue uma hipotética peça “Esperando Gonet”, tal como Beckett a teria escrito hoje.  

Esperando GonetDiálogo em um ato

Personagens:Vladimir – um homem cansado, mas persistente.Estragon – seu companheiro, cético e irônico.

Cenário:Uma praça vazia. Um poste de luz. Ao fundo, o ruído distante de uma televisão transmitindo um debate entre parlamentares. Vladimir está sentado em um banco, olhando o celular. Estragon anda em círculos.

Vladimir: Disseram que sim.

Estragon: Disseram ontem também.

Vladimir: Ontem era cedo.

Estragon: Hoje também é.

Vladimir: Hoje pode ser diferente.

Estragon: Sempre dizem isso.

Estragon: O que ele faria se viesse?

Vladimir: Como um procurador-geral.

Estragon: Mas o que ele poderia fazer?

Vladimir: Questionar formalmente atos do STF. Abrir investigações contra autoridades. Pedir abertura de inquéritos. Oferecer denúncias. Pedir medidas cautelares.

Estragon: Você tem uma imaginação admirável.

Estragon: Faz quanto tempo que estamos esperando?

Vladimir: Desde o início da crise.

Estragon: Qual delas?

Vladimir: Esta que estamos atravessando.

Estragon: Mas já tivemos umas cinco “estas”.

Vladimir: Esta é a definitiva.

Estragon: Todas são definitivas até a próxima.

Estragon: E este silêncio?

Estragon: Está ensurdecedor. Ele não vai fazer nada?

Vladimir: Acho que não.

Estragon: Não vai abrir uma investigação? Mandar apreender celular do ministro? 

Estragon: Nem soltar uma nota?

Vladimir: Nem uma vírgula.

Estragon: Nem um gesto?

Vladimir: Talvez um aceno burocrático.

Vladimir: Para o sistema?

(Começa a ventar. Um jornal amarrotado rola pela praça.)

Estragon: A crise só piora. As evidências se acumulam. As denúncias se empilham. As instituições balançam.

Estragon: E o procurador...

Vladimir: Ele também espera, como nós.

Estragon: Espera o quê?

Estragon: O momento perfeito?

Estragon: Ah. O momento perfeito. Esse grande refúgio...

Vladimir: Você é injusto.

Estragon: Sou realista.

Vladimir: Investigações levam tempo mesmo.

Estragon: Sim. Às vezes duram anos.

(Estragon pega o celular de Vladimir.)

Estragon: Vamos dar uma olhada.

Estragon: Nas notícias.

Não é medo nem prudência. É a velha tentação brasileira: a de não fazer nada, até que seja tarde demais

Estragon: Mais detalhes do escândalo aqui. Novas matérias sobre o Banco Master. Prints de conversas sobre uma tal de peleleca. Mais denúncias contra os ministros. Parlamentares de oposição protestando nas redes sociais. Jornalistas da grande mídia mudando de lado sem a menor vergonha. Suspeitas sobre crime financeiro envolvendo aquele resort… Como é mesmo o nome?

Estragon: Isso. Todos os dias aparece algo novo.

Vladimir: Piscinas infinitas. Helipontos discretos. Hóspedes seletos.

Estragon: Muito seletos.

Estragon: Também falam do contrato.

Vladimir: Qual deles?

Estragon: O de 129 milhões.

Estragon: Serviços estratégicos.

Vladimir: Tudo é estratégico hoje em dia.

Estragon: Sempre aparece dinheiro. Sempre aparecem contratos. Sempre aparecem resorts.

Estragon: Muitas festas.

Vladimir: Festas animadas.

Estragon: Festas inesquecíveis.

(Estragon continua rolando a tela do celular.)

Estragon: Aqui tem uma matéria inteira sobre as festas.

Estragon: Parece que eram lendárias.

Vladimir: Com música?

Estragon: Com música, bebida, convidados influentes…

Vladimir: E outras coisas.

Estragon: Muitas outras coisas.

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Estragon: Nada ainda.

Vladimir: Talvez ele esteja preparando algo grande.

Vladimir: Algo monumental.

Vladimir: Preparando um gesto histórico.

Vladimir: Uma investigação devastadora.

Vladimir: Ou talvez ele esteja apenas esperando.

Estragon: Esperando o quê?

Vladimir: Que tudo se resolva sozinho.

Estragon: Ou que tudo seja abafado. Não seria a primeira vez.

Estragon: Você acha que ele tem medo?

Estragon: É prudência?

Vladimir: Também não.

Vladimir: Então o quê?

Estragon: A velha tentação brasileira.

Estragon: A de não fazer nada até que seja tarde demais.

(Um carro passa ao longe. Ouve-se a sirene de uma ambulância.)

Estragon: O país está agitado.

Estragon: Parlamentares brigando na televisão.

Vladimir: Jornalistas enxergando subitamente coisas que até ontem não enxergavam.

Estragon: Áudios vazando. Desmentidos que não param em pé. 

Vladimir: E o procurador...

Vladimir: Lembra quando disseram que as instituições estavam funcionando?

Vladimir: Talvez estejam.

Estragon: Funcionando como? Em câmera lenta?

Vladimir: Como então?

Estragon: Funcionando como um teatro.

Estragon: Onde todos sabem o roteiro, mas fingem surpresa.

Vladimir: Talvez ele ainda faça alguma coisa.

Vladimir: E se ele vier amanhã?

Estragon: Amanhã ele resolverá tudo?

Vladimir: Pode começar a resolver.

Estragon: Amanhã tudo sempre pode começar.

Vladimir: Você perdeu a esperança.

Estragon: Eu a terceirizei.

Estragon: Para quem deveria agir.

Vladimir: Isso resolve alguma coisa?

Vladimir: Então por que esperar?

Estragon: Porque alguém precisa esperar.

Estragon: Para lembrar que alguém deveria ter vindo.

Vladimir: Você acha que ele sabe que estamos esperando?

Estragon: Acho que isso não muda nada.

(Os dois ficam em silêncio. O céu escurece.)

Vladimir: Vamos embora?

Estragon: Não podemos.

Estragon: Estamos esperando.

Vladimir: Esperando o que exatamente?

Estragon: Que alguém faça o que deveria ter feito.

Vladimir: E se ninguém fizer?

Estragon: Então continuaremos esperando.

Vladimir: Até quando?

Vladimir: Então ficamos?

(As luzes diminuem lentamente. Vladimir e Estragon não se movem.)


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