Os políticos querem o voto evangélico, mas não suportam sua consciência
A cada eleição, o Brasil oficial redescobre os evangélicos. Não como povo ou comunidade de fé. Tampouco como rede de famílias, igrejas, escolas bíblicas, missões, músicas, dores, conversões, solidariedade e esperança. Redescobre como ativo eleitoral.
A pergunta raramente é: “O que os evangélicos creem?”. A pergunta real, quase sempre, é: “Quantos votos eles entregam?”
Nos últimos dias, o tema voltou ao centro da arena. O núcleo evangélico do PT divulgou uma carta aos evangélicos, recheada de linguagem bíblica, defesa da democracia, justiça social e crítica à “manipulação da fé”. A Folha leu o movimento como aceno a pentecostais e neopentecostais, destacando também aquilo que o texto preferiu não enfrentar: aborto, pautas de gênero e outros temas que historicamente tensionam a relação entre a esquerda e o mundo evangélico. Josias de Souza foi direto: a crença em um “Deus cabo eleitoral” seria uma perversão dos valores cristãos. Há uma verdade aí. Mas há também uma armadilha.
Sim, Deus não é cabo eleitoral. Nem da direita, nem da esquerda, nem do centro. Não cabe em diretório, não assina programa de governo e não unge candidato por conveniência de marqueteiro. O Deus cristão não é coordenador de campanha. Não é selo espiritual para ambição humana.
O evangélico é alvo de duas caricaturas. Para uns, é massa ignorante manipulada por pastores. Para outros, é propriedade eleitoral natural de determinado campo político
O evangélico é alvo de duas caricaturas. Para uns, é massa ignorante manipulada por pastores. Para outros, é propriedade eleitoral natural de determinado campo político
Mas disso não decorre que a fé deva ser muda, tímida ou confinada ao templo. Uma coisa é negar que Deus seja instrumento de campanha. Outra, bem diferente, é exigir que o cristão abandone sua consciência quando entra na praça pública.
O problema não é a religião participar da política. O problema é a política tentar capturar a religião. Em português claro: César não pode fundar uma igreja; a Igreja não pode virar repartição pública. Mas o cidadão religioso não precisa pedir licença ao secularista para participar da vida nacional.
Aliás, este é um dos truques........
