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O mérito e seus fantasmas

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20.05.2026

Michael França, colunista da Folha de S.Paulo, publicou um breve vídeo com uma pergunta que ele mesmo considera devastadora: quem tem mais mérito – o jovem que tirou 95 estudando nas melhores escolas privadas do país, com tempo livre e estabilidade, ou o que tirou 82 depois de trabalhar oito horas por dia desde os 16 anos, estudando na periferia? A pergunta é formulada com a sobriedade de quem já sabe a resposta e aguarda a confirmação dos que já concordam de antemão com ele.

A tese não é nova: o desempenho individual reflete condições desiguais de origem, e a seleção por resultado tende a medir o ponto de partida tanto quanto o talento. A intuição tem considerável respeitabilidade filosófica. John Rawls, em Uma Teoria da Justiça, observou que talentos naturais e circunstâncias de nascimento são moralmente arbitrários. O indivíduo não os merece no sentido forte do termo. O sociólogo francês Pierre Bourdieu demonstrou empiricamente que o capital cultural funciona como vantagem estrutural invisível, transmitida por mecanismos que a escola reproduz sem enunciar. Não dá pra negar que França está em boa companhia ao reabilitar o problema. A solução que batiza de “meritocracia prospectiva” é outra questão.

Critérios institucionais de seleção existem para reduzir o arbítrio. Um critério fundado em potencial estimado reintroduz o arbítrio com vocabulário mais generoso e ideológico

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