menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Dualidades no centro de Curitiba: entre o manto e o corote

9 0
23.01.2026

Caminhava, como de costume, da minha casa até o estúdio da Gazeta do Povo. Tornou-se um ritual de observação através do qual muitas crônicas nascem. Num dos trajetos desta semana, decidi andar pelo terminal de ônibus do Guadalupe, abraçado pelo santuário de Nossa Senhora de Guadalupe. 

Passava pelas costas da igreja, onde uma imagem monumental da Virgem de Guadalupe se estende pela parede, um mural que, confesso, nunca havia contemplado de verdade. Não dá pra bobear naquela região, é preciso ficar esperto e se movimentar com rapidez. Mas algo me fez parar desta vez. 

Fiquei ali, por alguns segundos diante da Virgem de pele morena, com seu manto estrelado e o olhar compassivo. Lembrei de parte de sua história, da aparição a Juan Diego, um indígena pobre que pertencia à baixa casta do Império Asteca, quase na condição de escravo, e se dedicava a um árduo trabalho no campo e a fabricar esteiras. 

O que não falta ali no entorno da igreja são pobres. Mais do que pobres, mendigos, viciados. Durante o dia se espalham pela cidade para, de noite, ali se concentrar, reinando. Que fariam se a Virgem lhes aparecesse?

Poucos passos adiante, meu olhar pousou sem querer no balcão refrigerado de um boteco qualquer. Ali, expostos sem pudor, diversas garrafinhas de corote e “cana boa”. E mais nada. As bebidas que alimentam a fuga e a miséria de tantos que perambulam por ali.

Olhei para o botequeiro, um homem de rosto cansado que limpava o balcão com........

© Gazeta do Povo