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Sua excelência a resiliência

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19.02.2026

Antigamente, não havia resiliência. Ou melhor, o conceito existia, designado com outras palavras, mas não com essa. Não é exactamente como o kiwi, fruta que — mantenho essa convicção – alguém inventou por volta dos anos 80. Havia maçãs, laranjas, pêras – enfim, as frutas tradicionais. Não havia kiwi. Nem a palavra kiwi. Devo registar que a palavra resistência, pelo contrário, existia. O dicionário de Morais fornecia a seguinte definição: “valor ou número característico da resistência ao choque de um material, e que representa a energia absorvida pela ruptura de uma barra de secção unitária.” Não é esse, no entanto, o significado que a palavra tem hoje. Como sabemos, o PRR não é o Plano de Recuperação e Valor ou Número Característico da Resistência ao Choque de um Material, e Que Representa a Energia Absorvida pela Ruptura de uma Barra de Secção Unitária. Segundo dicionários mais recentes, o significado actual da palavra resiliência tem a ver com a capacidade de recuperar de adversidades. O que significa que o Plano de Recuperação e Resiliência é, na verdade, um Plano de Recuperação e Recuperação. É com esse sentido que a palavra é usada. Resiliência é agora a capacidade de recuperar, resistir, recobrar, retomar a antiga forma. Porque é que deixou de se dizer recuperar, resistir, recobrar ou retomar a antiga forma é que ninguém sabe. O que sabemos é que a palavra resiliência ganhou enorme prestígio, prestígio esse que migra para quem a profere. Talvez o dicionário de sinónimos devesse assinalar esse fenómeno, e oferecer conjuntos de vocábulos, organizados pelo nível de prestígio que conferem ao falante. Como um vendedor que dissesse: “para o dia-a-dia, temos à sua disposição as palavras recuperação, resistência ou recobro. Mas, se é para dizer na televisão, recomendo um produto de gama superior, tal como resiliência.”


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