Por que se gastam, periodicamente, dezenas de milhões de euros com o litoral?
Relativamente à dinâmica de praias, quando não existe défice sedimentar litoral há um equilíbrio dinâmico no balanço sedimentar de um dado troço de praia.
Durante o inverno, a ondulação marítima, mais energética e de maior período, remove areia da praia e coloca-a em zona submarina hidrodinâmicamente mais calma, pouco afastada da praia; a face da praia fica extensa e com menor declive. Durante o verão, a ondulação, mais fraca e com menor período, volta a transportar a areia dos bancos submersos para a praia; esta fica com o seu patamar mais extenso e a face de praia menos extensa e com maior declive.
Contudo, Portugal tem estado com desenvolvimento de uma progressiva erosão litoral, por acelerado défice sedimentar de areia em transporte para sotamar (para sul na costa ocidental), pela oblíqua rebentação das ondas geradas no Atlântico Norte e com rumo dominante de NW (Noroeste).
Existem alguns fatores naturais que influenciam esta tendência, tais como a muito lenta subida do nível médio do mar, temporárias alterações no regime de tempestades por variabilidade climática, curtas mudanças na direção e energia da ondulação, bem como na dinâmica natural de ciclos sedimentares. Mas as principais causas atuais deste défice sedimentar estão, muito predominantemente, associadas a ações antrópicas, nomeadamente, devido a:
- Retenção de areias fluviais, que se depositam na afluência às albufeiras de barragens/açudes que criaram um nível de base local;
- Não reposição, a sotamar, da areia litoral dragada nas embocaduras de rios, sob jurisdição portuária;
- Em áreas portuárias, também ocorrerem profundas dragagens do fundo do canal, criando sumidouros sedimentares que interrompem a deriva litoral de areia;
- Construção de molhes portuários, esporões e quebra-mares, que tendem a agravar o défice sedimentar a sotamar, na deriva litoral, bem como exigem periódicas e muito dispendiosas reparações;
- Terem existido e algumas ainda existirem (ex. no rio Tejo, em Abrantes) frequentes extrações de areia nos leitos de rios, bem como, ainda recentemente, em praias;
- Em rios com controle antrópico dos caudais, pela diminuição das pontas de cheia fluvial, que são as responsáveis pelo acarreio de grandes volumes de areia ao litoral;
- Ocorrerem episódicas extrações de areia na zona litoral submersa, removendo os bancos de areia que constituem barreiras topográficas e reduzem a energia da ondulação que, durante um temporal, atinge a costa adjacente.
A acelerada erosão litoral tem originado grande perda do território emerso, nomeadamente, por progressivo(a): redução de areia em praias; recuo erosivo do litoral; destruição de edificações, estradas e outras estruturas atingidas pelo recuo erosivo do litoral; erosão de barreiras arenosas que protegiam lagunas (ex. Costa Nova e Ria Formosa); bem como desenvolvimento de arriba erosiva em campos de dunas eólicas costeiras.
A contínua e acelerada erosão litoral resulta, em grande parte, da incapacidade das instituições com competências no litoral conseguirem minimizar as causas antrópicas do crescente défice sedimentar.
Felizmente, a actual Direcção da Agência Portuguesa para o Ambiente (APA) tem evitado construir mais esporões e tem procedido à muito dispendiosa reposição artificial de areia em praias com muito elevado valor turístico. Isto é feito através da transferência de areia dragada nas áreas portuárias (por imperativos de acesso marítimo ao porto). Tem também equacionado a possibilidade de se fazer “bypass” nas embocaduras sob jurisdição portuária. Além disso, tem promovido uma gestão integrada da zona costeira.
Contudo, os volumes de areia repostos desaparecerão em poucos anos ou, muito rapidamente, quando uma agitação marítima de temporal atingir também as praias "alimentadas" artificialmente.
Como existe um enorme défice sedimentar no litoral de Portugal continental, quer com fraca ondulação quer com ondulação de temporal, nas últimas décadas a faixa de praia tem estado sempre a perder o seu prisma arenoso, seguido por progressiva erosão na arriba adjacente.
Como acima referi, durante o energético inverno, principalmente durante temporais no mar, as areias que a rebentação da ondulação retira da praia e da arriba vão para uma zona de fundo marinho onde já não se sente a agitação. Devido ao extremo défice, durante os períodos de fraca agitação marítima esse volume já não retorna à praia. Por isso, para manter alguma extensão em praias arenosas, a APA terá que continuar a fazer periódicas e muito dispendiosas "alimentações" artificiais de areia.
Em termos de perspectivas futuras, as linhas de costa dos restantes troços costeiros, sem periódicas alimentações artificiais de areia, tenderão a rodar erosivamente em sentido retrógrado (devido ao facto de, no litoral ocidental, a deriva dominante ser para sul) se são exclusivamente baixas e arenosas ou só existirem, localmente, no interior de reentrâncias costeiras delimitadas por promontórios rochosos.
A opção por praias arenosas completamente artificiais, já acontece em várias regiões do mundo.
