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A AD governa à bolina, o PS arrisca a deriva e o Chega tem o vento de feição

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30.03.2026

Enquanto o governo de Luís Montenegro e Hugo Soares navega à bolina, ziguezagueando à direita e à esquerda, muito satisfeito por manter o poder de comandar o barco, os socialistas ficam tontos com tantas guinadas da AD à direita e mostram-se incapazes de definir um rumo para si próprios. É um modo de governação que serve os propósitos do Chega, pouco incomodado com os ventos que provocam tempestades.

Não sei quem estará na liderança do PS quando o país for de novo a eleições, mas sei — como sabem muitos dirigentes socialistas — que são fortes as probabilidades de não ser José Luís Carneiro. Desconfio, aliás, que o próprio começa a adivinhar que os costistas ou os pedronunistas acabarão por lhe fazer o que Costa fez a Seguro, mandando-o borda fora assim que se avistar o porto eleitoral. As cartas enviadas com as respostas que nunca chegaram e o OE viabilizado são a oposição poucochinha que apontavam ao líder socialista do tempo da Troika. E até a ameaça de endurecer a oposição parece, tal como no passado, consequência de pressões internas e transporta-nos para a célebre frase do líder de então: “Anulei-me durante três anos para manter a paz no PS”. Nessa altura, o partido era um albergue espanhol onde até Costa tinha passe VIP e, quando o líder saiu de lá para defender as suas convicções, já era tarde.

Carneiro entrou no congresso a ameaçar uma tempestade e saiu a prometer responsabilidade; veremos se é hesitação ou estratégia. A cura na oposição, para um partido de poder, é sempre demorada e dolorosa, mais ainda quando, terminado o regime da alternância, é preciso mais empenho e mais engenho para afirmar uma alternativa. Não chega proclamar diálogo com as forças vivas da sociedade. O PS tem um problema grave e sério para resolver: a falta de vontade de refletir sobre o que o povo espera dos partidos políticos. E esse problema percebe-se em gente que, gostando muito de se ouvir a si própria, tem pouca paciência para ouvir quem pensa diferente. O congresso deu uma imagem disso, onde não faltaram históricos socialistas a falar para o boneco, tão pouca gente estava na sala.

Sendo verdade o que diz Cavaco Silva sobre o Chega ser um partido destituído de credibilidade política, também é verdade que André Ventura compensa isso muito bem com a credibilidade que lhe empresta Passos Coelho, de olhos postos na aritmética que lhes aponta uma maioria confortável no Parlamento. Na teoria, aliás, Montenegro afirma a sua liderança como estando mais perto do legado de Cavaco, mas, na prática, é o modus operandi sugerido por Passos que é seguido pela AD, que não hesita em preferir o Chega para aprovar o que diz serem as reformas em curso — na imigração, na habitação ou, a breve prazo, na legislação laboral. Ventura dificilmente conseguiria melhor: o sol na eira e a chuva no nabal, que a AD gostava de ter, são património político do Chega, que vive bem dizendo uma coisa e o seu contrário.

De tudo isto pode resultar uma oportunidade de ocupar o centro moderado, mas, se o próprio PS dá de si a imagem de um partido hesitante, com receio de assumir um caminho e se, em cima disso, cria a perceção de que este é um líder a prazo, com todos os apaniguados de líderes anteriores a querer deixar marca, então, aos eleitores, continuará a parecer um partido à deriva.


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