Merz e Meloni e o novo centro de poder
Houve um tempo em que Silvio Berlusconi encenava a política italiana como espetáculo permanente, convencido de que o poder europeu se resolvia como os negócios, em telefonemas e cumplicidades pessoais. A Europa de hoje é bem menos teatral e muito mais Realpolitik. E nunca como agora a União Europeia (EU) enfrentou um momento de realinhamento tão profundo das suas estruturas de poder político e económico. Enquanto os europeus tentam responder simultaneamente a desafios externos, da guerra na Ucrânia às tarifas, à segurança, à coesão territorial e à turbulência transatlântica promovida pelos Estados Unidos da América (EUA), e internos, da estagnação económica ao ressurgimento de forças de extrema direita, um novo tipo de cooperação bilateral emerge no coração da Europa, será?
A aproximação entre a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o chanceler alemão, Friedrich Merz — reconduzido esta semana como chefe do seu partido, a União Democrata-Cristã (CDU) —, tem sido lida por muitos analistas como potencial redefinição do eixo tradicional que sustentava o projeto europeu, aquele que, desde a segunda metade do século XX, foi simbolizado pela aliança franco-alemã. O movimento não é meramente retórico. Nos últimos meses, Berlim e Roma intensificaram consultas e reuniões governamentais e planos conjuntos que cobrem desde a competitividade económica ao reforço da integração do mercado interno da UE. Numa cimeira intergovernamental na Villa Doria Pamphilj, em Roma, os dois líderes oficializaram um Plano de Ação italo-germânico que prevê, entre outros pontos, a simplificação legislativa e a autocontenção regulatória, designações algo eufemísticas para uma agenda de reformas profundas que visam liberalizar e dinamizar a economia europeia num momento de concorrência feroz com os EUA e a China.
A dialética da cooperação Meloni-Merz tem sido vista em Itália e na Alemanha como um movimento pragmático e necessário. Meloni não hesita em afirmar que os dois países estão mais próximos do que nunca em matérias que vão da produtividade ao reforço das cadeias de valor estratégicas europeias, sectores como o automóvel, os........
