O novo líder do Irão e o que se segue: a formação de um regime residual
O Irão não está a colapsar. Está a tornar-se mais pequeno, mais duro e mais perigoso.
O novo Líder Supremo do Irão iniciou o seu mandato com uma mensagem clara de desafio: o Estreito de Ormuz continuará a ser utilizado como instrumento de pressão contra o Ocidente. No entanto, por detrás da retórica emerge uma realidade mais consequente — a República Islâmica não está a colapsar, mas a contrair-se num sistema mais estreito, dominado pela segurança, que começa a assemelhar-se a um regime residual.
Na sua primeira declaração pública como novo Líder Supremo — apresentada por escrito e lida na televisão estatal — Mojtaba Khamenei afirmou que o fecho do Estreito de Ormuz deve continuar a ser utilizado como instrumento de pressão contra os adversários do Irão. A mensagem refletiu um regime que procura projetar firmeza enquanto absorve a perda de grande parte da sua liderança sénior e enfrenta um dos choques mais severos à sua estrutura de comando desde os primeiros anos da República Islâmica.
O discurso oferece um primeiro vislumbre do sistema que está agora a tomar forma.
A guerra em torno do Irão está a produzir uma dinâmica particularmente reveladora: a eliminação sistemática da liderança de topo. Ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel têm visado, de forma crescente, comandantes do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, estrategas militares seniores e arquitetos da rede regional de proxies — figuras outrora centrais na arquitetura estratégica do regime.
Relatos emergentes do interior do círculo dirigente sugerem que o próprio Mojtaba Khamenei terá escapado por pouco à primeira vaga de ataques que devastou as fileiras superiores do regime. Informações provenientes do complexo do líder supremo descrevem um ataque coordenado que terá provocado a morte de vários membros da sua família e do seu círculo mais próximo, evidenciando tanto a precisão como o alcance da operação. Embora tais detalhes sejam difíceis de confirmar na totalidade, apontam para uma liderança sob pressão aguda e sem precedentes — onde até o vértice do poder deixou de estar protegido do risco militar direto.
Ainda assim, a eliminação de líderes, por mais dramática que seja, não conduz necessariamente à mudança de regime no imediato. Com frequência, sistemas autoritários respondem consolidando o poder nos seus elementos de segurança mais endurecidos.
Teerão procurou agora dar a sua resposta. A Assembleia dos Peritos nomeou Mojtaba Khamenei, filho do falecido Líder Supremo Ali Khamenei, como novo líder do país. A escolha é reveladora.
Mais do que sinalizar renovação ou compromisso, esta escolha aponta para uma lógica de continuidade através da contração: preservar a República Islâmica numa forma mais estreita, mais rígida e mais securitária.
O que está a emergir em Teerão não é tanto o colapso de um regime, mas a sua transformação numa forma mais estreita e securitária — um regime residual.
Por agora, a ascensão de Mojtaba Khamenei indica que a República Islâmica não está a cair, mas a comprimir-se. O poder está a concentrar-se num círculo mais reduzido de elites clericais e de segurança, em particular no seio da Guarda Revolucionária, cuja influência já domina a economia política e o aparelho de segurança nacional do Irão.
Os primeiros sinais da nova liderança reforçam essa trajetória. Nas suas declarações iniciais, Mojtaba Khamenei apelou à unidade nacional, advertiu que bases americanas na região poderão ser alvo e reiterou que o fecho contínuo do Estreito de Ormuz deve servir como instrumento de pressão.
A insistência no fecho do Estreito de Ormuz sublinha a dimensão externa desta consolidação interna. Este estreito continua a ser um dos corredores energéticos mais críticos do mundo, por onde circula cerca de um quinto do petróleo global. A posição geográfica do Irão neste ponto de estrangulamento confere a Teerão uma alavanca geopolítica significativa. Mesmo um sistema político enfraquecido — um regime residual centrado nas instituições de segurança — pode continuar a influenciar os fluxos energéticos globais e a estabilidade regional.
Campanhas de eliminação de liderança podem enfraquecer regimes de forma profunda sem os destruir. Desorganizam estruturas de comando e impõem custos táticos, mas a mudança de regime é, em última análise, um processo político. A pressão militar, por si só, raramente gera transformação sistémica sem fraturas internas mais profundas.
A história sugere que duas forças tendem a impulsionar mudanças decisivas.
A primeira é uma revolta interna sustentada capaz de fraturar o aparelho coercivo do regime. O Irão tem vivido sucessivas vagas de protestos nas últimas duas décadas — do Movimento Verde em 2009 às manifestações nacionais após a morte de Mahsa Amini em 2022, e aos protestos de janeiro de 2026 desencadeados pelo colapso económico. Estes movimentos espalharam-se rapidamente pelo país, mas foram brutalmente reprimidos sob um quase total apagão digital, deixando milhares de mortos e dezenas de milhares de detidos. Ainda assim, nenhum gerou as deserções de elites ou as ruturas institucionais necessárias para derrubar o sistema.
A segunda via implicaria uma ocupação militar externa capaz de desmantelar as instituições governativas e impor uma nova ordem política. Após as experiências dispendiosas no Iraque e no Afeganistão, poucos decisores em Washington — e ainda menos atores regionais — demonstram vontade de seguir esse caminho.
Na ausência de revolução interna ou intervenção externa, campanhas de decapitação tendem a produzir adaptação, não colapso.
O processo de sucessão que levou Mojtaba Khamenei ao poder reflete precisamente essa dinâmica. A Assembleia dos Peritos atuou rapidamente para preencher o vazio de liderança em condições de guerra, privilegiando continuidade e sobrevivência do regime em detrimento de debate ideológico ou renovação política.
Mojtaba tem sido, há muito, uma figura influente nos bastidores. Embora nunca tenha ocupado cargos eletivos, construiu relações estreitas com a Guarda Revolucionária e consolidou influência no clero de Qom. Durante anos, terá atuado como guardião do acesso ao gabinete do seu pai, moldando equilíbrios internos de poder.
A sua ascensão não sinaliza moderação, mas sim consolidação.
Uma liderança centrada em Mojtaba Khamenei e apoiada pela Guarda Revolucionária poderá dar origem a uma ordem política mais estreita e mais orientada para a segurança. As instituições civis tenderão a enfraquecer ainda mais, enquanto a tomada de decisão se concentra nas elites de segurança sobreviventes, cuja prioridade central é a sobrevivência do regime.
Tal regime dificilmente será moderado — mas poderá tornar-se substancialmente mais cauteloso.
Uma liderança focada na sobrevivência poderá privilegiar a dissuasão e o controlo interno em detrimento de ambições regionais expansivas. A rede de forças proxy do Irão — do Líbano ao Iraque e ao Iémen — não desaparecerá, mas poderá tornar-se mais seletiva e calibrada.
Em suma, o Irão poderá recalibrar-se em vez de capitular, emergindo do conflito como um regime residual enfraquecido.
A crise iraniana revela também algo sobre o ambiente geopolítico mais amplo em que se insere. Teerão é frequentemente descrito como parte de um alinhamento informal de potências revisionistas ao lado da Rússia e da China. Ainda assim, momentos de conflito agudo tendem a expor os limites dessa convergência estratégica.
Moscovo ofereceu apoio diplomático, mas pouca ajuda direta, limitada pela guerra na Ucrânia e por prioridades concorrentes. Pequim, apesar dos laços económicos com Teerão e da dependência do petróleo iraniano, tem adotado uma postura cautelosa — apelando à contenção enquanto evita envolvimento direto que possa desencadear confronto com os Estados Unidos.
Ainda assim, a importância estratégica do Irão para ambos permanece significativa. Para a Rússia, representa um parceiro capaz de complicar a estratégia americana no Médio Oriente. Para a China, é um nó relevante nas cadeias energéticas e um possível ponto de apoio nas rotas ocidentais da Iniciativa Cinturão e Rota.
Um regime residual em Teerão — sobretudo dominado pela Guarda Revolucionária — poderá, assim, tornar-se ainda mais integrado neste eixo estratégico informal entre China, Rússia e Irão.
Um colapso total do regime parece, por agora, improvável sem fraturas internas profundas. Uma transformação decisiva exigiria um nível de envolvimento externo que poucos atores estão dispostos a assumir.
O cenário mais provável aponta para uma recalibração numa zona cinzenta. As hostilidades poderão diminuir de intensidade. O Irão poderá sobreviver numa forma enfraquecida sob um regime residual centrado na Guarda Revolucionária. A fricção regional continuará de forma intermitente. A dissuasão poderá ser parcialmente restaurada, ainda que de forma frágil.
Washington poderá apresentar este resultado como restabelecimento da dissuasão. Teerão procurará apresentar a sobrevivência como vitória.
A guerra pode eliminar líderes e enfraquecer o regime. Mas, sem revolta interna ou ocupação externa, é pouco provável que o sistema desapareça por completo.
Para já, o Irão não caminha para a mudança de regime. Caminha para a compressão do regime.
O Irão pode estar a revelar uma regra mais profunda da geopolítica atual: sob pressão, os regimes não caem — transformam-se em formas mais estreitas, mais securitárias e, por vezes, mais duradouras.
A própria liderança permanecerá exposta a novas tentativas de eliminação. Ainda assim, mesmo nesse cenário, a dinâmica de fundo manter-se-á: não o colapso, mas uma contração adicional em torno do aparelho de segurança.
A ascensão de Mojtaba Khamenei não marca o nascimento de uma nova ordem política. Marca a sobrevivência do sistema existente numa forma significativamente mais fraca — um regime residual progressivamente reduzido ao seu núcleo securitário e orientado para o controlo interno, mais do que para a projeção externa.
Marco Vicenzino é estratega geopolítico e consultor global de empresas com atividade internacional, sendo também um orador frequente em conferências empresariais em todo o mundo.
