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O poder que não reconhece limites cria os seus próprios

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17.03.2026

A guerra raramente permanece fiel ao seu ponto de partida. Inicia-se no terreno militar, entre mapas, caças e drones, mas abandona com rapidez a linearidade estratégica e desloca-se para um plano mais humano, onde já não está em causa apenas o território, mas também a confiança, a expectativa e a estabilidade.

No conflito entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, a dimensão convencional mantém-se visível, embora perca centralidade à medida que o confronto se integra no sistema global de fluxos energéticos, de rotas marítimas e de cadeias logísticas. A frente decisiva transfere-se da linha de contacto entre exércitos para a arquitetura que sustenta o comércio internacional e garante a previsibilidade dos mercados.

Essa mutação tornou-se particularmente evidente no Estreito de Ormuz.

Antes da escalada, dezenas de petroleiros atravessavam diariamente o canal. Hoje, o tráfego caiu de forma abrupta, tornando-se irregular e, em certos momentos, quase inexistente. Por ali passa aproximadamente um quinto do petróleo transportado por via marítima no mundo, o que significa que qualquer perturbação altera preços, amplia a volatilidade e introduz pressão inflacionista. Num corredor desta natureza, a menor oscilação deixa de ser um incidente localizado e transforma-se num choque sistémico. Os estreitos são vulnerabilidades transformadas em poder.

A geografia reforça essa vulnerabilidade estrutural. O estreito constitui um ponto de estrangulamento entre margens próximas, onde a superioridade tecnológica não assegura controlo efetivo. A partir da costa podem ser utilizados mísseis antinavio, drones, lanchas rápidas e sistemas não tripulados. O Irão dispõe ainda de submarinos de pequeno porte e de um arsenal relevante de minas marítimas. Mesmo quando não são ativadas em larga escala, estas capacidades funcionam como instrumentos permanentes de dissuasão. A simples possibilidade da sua utilização altera o cálculo das seguradoras, dos operadores logísticos e das marinhas envolvidas: os mercados reagem à expectativa antes de reagirem aos eventos.

Ao longo do conflito, a estratégia iraniana conheceu uma inflexão clara. Numa fase inicial, prevaleceu o recurso ao míssil convencional. Progressivamente, o regime passou a privilegiar os drones, permitindo lançar ataques contínuos, relativamente........

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