Nada será como antes
A História é sempre vivida em tempo real, mas raramente conseguimos declarar o fim de um capítulo de forma tão nítida como nos últimos dias. Se a invasão Russa da Ucrânia, em 2022, foi um sismo que abalou as fundações da ordem liberal internacional, os desenvolvimentos da crise no Médio Oriente são a prova de que pouco resta do edifício. Estamos a assistir à inauguração de uma (des)ordem global, onde o Ocidente já não é o único ator com verdadeira capacidade de iniciativa.
Mais do que a uma crise diplomática, estamos a assistir ao choque frontal entre a doutrina de realismo transacional de Donald Trump e a fria geografia do poder americano. A “arte do negócio” que Washington tentou impor por via de ultimatos sucessivos esbarrou na resistência de Teerão. O regime Islâmico provou ter mais do que apenas “cartas” mediáticas: tem o controlo da jugular da economia mundial.
Pela primeira vez em décadas, a supremacia tática dos Estados Unidos é desafiada não por uma ideologia, mas por uma realidade física inalterável. Ainda que a supremacia tática e militar da coligação americano-israelita seja incontestável, a sua derrota estratégica é evidente. A degradação do aparato do Regime Islâmico do Irão custou, até prova em contrário, a livre navegação dos mares.
O bloqueio do Estreito de Ormuz, agora alvo de um contra bloqueio e tensão máxima, assina a declaração de óbito do direito internacional marítimo e o precedente criado é aterrador: as regras já não bastam. A livre circulação passa a facultativa, hoje no Médio Oriente, amanhã no Mar Vermelho, no futuro em todo o mundo.
A China preenche o vazio com diplomacia de estabilidade fria protegendo os seus interesses comerciais e de segurança. Uma nova realidade em que as tradicionais instituições multilaterais são ignoradas e os mapas de influência redesenhados à margem do sistema nascido em 1945. Se o acordo de Islamabad pretendia ser a mais um capítulo da inauguração de uma nova (des)ordem global, o seu colapso revela algo mais aterrador: entrámos num mundo onde as regras não bastam, as organizações internacionais são irrelevantes e o ultimato, seja ele comercial, financeiro ou militar é o novo normal.
Vistos da Europa, estes acontecimentos ganham especial gravidade. As ameaças à NATO (apenas aumentadas no seu tom com este conflito) são mais uma evidência desta nova ordem internacional. A aliança transatlântica deixa de ser um compromisso de valores para passar a ser uma relação transacional na qual se exige lealdade e apoio, mesmo quando estes não são devidos.
Neste contexto, o mais importante aliado europeu e elemento-chave da arquitetura de segurança europeia, passa a garante temporário de interesses. Se novos agentes podem garantir tréguas sem a burocracia das instituições liberais, a segurança europeia passa gasto supérfluo para Washington.
Mais do que o desmantelamento da NATO e o que isso significaria para a relação transatlântica, o perigo está na sua irrelevância num mundo em que os problemas são resolvidos através da força, ignorando o direito internacional. A Europa não poderá mais depender dos Estados Unidos da América para a sua segurança no médio e longo prazo.
É ainda muito cedo para declarar a forma como este conflito terminará, mas o fim da ordem internacional liberal parece um dado adquirido.
Antes um espaço minimamente regrado por via do direito internacional, a ordem global passa a um mercado de interesses onde novos atores já ocuparam os seus lugares à mesa. Da Ucrânia aos mares, a lição é clara: a segurança passou de direito a mercadoria. A paz já não se garante, compra-se. Quem não tem força para se defender, tem de ter moeda para negociar. Ou paga em soberania, ou paga com silêncio.
O monopólio da moralidade ruiu e, sobre os seus escombros, a nova ordem global já abriu as portas. Nada será como antes.
