Em Espanha aconteceu. E se fosse cá?
Imagine que o seu processo, ainda em segredo, aparece amanhã no jornal. Só os factos que o incriminam, nunca os que o defendem. E que ninguém responde por isso.
Agora imagine que quem deixou sair a informação era o homem que dirigia toda a acusação pública do país. Não é hipótese. A 20 de novembro, o Procurador-Geral do Estado espanhol entrou no Supremo do outro lado da barra. Não como acusador. Como acusado. Quatro dias depois, demitiu-se.
O guardião da legalidade fora condenado por a violar. E o poder a quem servia, em vez de se afastar, moveu-se para o salvar.
Chama-se Álvaro García Ortiz. Dois anos de inabilitação por revelação de dados reservados de um caso que tocava o poder. Foi a primeira vez, em toda a democracia espanhola, que um Procurador-Geral foi condenado no cargo. O Supremo foi claro: sobre o cargo recai um dever reforçado de reserva e ele violou-o sem justificação. Não por engano. Por cálculo.
E o poder, o que fez? Aproximou-se.
Semanas depois, o próprio Governo pôs em marcha o perdão. Para o seu Procurador-Geral. A Procuradoria avalizou o perdão, alegando «consequências extrapenais intensas». Quem escolhe o fiscal perdoa o fiscal. O círculo fecha-se sozinho.
E não está sozinho.
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