Lições da guerra
Ainda é cedo para saber como vai acabar a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irão e, mais ainda, para saber como vai ficar o país e a região depois destes combates. Mas já há algumas conclusões que se podem tirar deste primeiro conflito da pós-ruptura.
Os Estados Unidos da América precisam de aliados se querem exercer o poder de superpotência, mas comportam-se como um Império e não um aliado mais forte. As bases militares no estrangeiro foram fundamentais para esta campanha. Mas isso não fez os Estados Unidos da América pensar que deveriam conversar com os parceiros do costume sobre os seus propósitos e sobre a possibilidade de estarem alinhados antes de começar a guerra. A perspectiva de Washington sobre estas relações é imperial: quero, posso, uso. E se recusarem retalio com palavras ou actos.
A dispensa de aliados inscreve-se no racional da dispensa de regras. Noutros tempos, os Estados Unidos teriam querido fazer parecer que havia um módico de regras que estavam a ser cumpridas. Para consumo interno e externo. No limite, poderiam ter anunciado ir salvar o povo iraniano dos abusos brutais de um regime tirânico. Como na Venezuela, porém, a questão de regime é limitada ao futuro das relações bilaterais. Não importa que seja uma democracia ou outra coisa qualquer, importa, se for possível, que se alinhe com Washington. O resto, nem pretexto é. Esta América acredita no poder exclusivo da força. Se a guerra correr mal, o percepção do poder americano será a maior baixa.
A despreocupação com as regras é sinal de regresso a um tempo em que o mundo se divide entre os nossos e os deles. Aos nossos, basta serem nossos. Os que acham que foi sempre assim, ignoram, por viés ideológico, que o mundo do pós-queda do Muro de Berlim, quando houve menos complacência com as falhas dos aliados, foi o tempo da maior prosperidade global e expansão da democracia e liberdade. Falam muito de Ocidente e Liberdade, mas não têm muito apreço pelos seus méritos nem pela expansão das suas ideias. E também parecem ter pouco interesse pela História. Mesmo quando aos aliados eram permitidas as maiores iniquidades, havia uma superioridade moral do lado de cá que a América do ICE não tem.
Depois desta guerra (e da ameaça sobre a Gronelândia, da traição em curso à Ucrânia e da captura de Maduro) para os aliados tradicionais da América fica evidente que o afastamento em relação aos Estados Unidos se justifica por interesse próprio. Os europeus, tal como outros aliados a norte ou no Pacífico e no Índico, não podem contar que Washington tenha os mesmos interesses ou que os tente alinhar. França, que sempre pensou assim, percebeu que este era o momento de o mostrar. E de mostrar que podia fornecer serviços de segurança e defesa aos seus aliados. O discurso de Macron em cima do seu submarino nuclear foi isso que veio dizer: temos poder e está à vossa disposição. A França a ser França. Só que agora com espaço. Dias depois enviou um porta-aviões para proteger o Chipre dos danos colaterais da guerra dos Estados Unidos e Israel.
A Alemanha tem sido o poder económico do continente. França espera poder ser o poder militar. Para Paris, o reequilíbrio de forças na Europa passa por aqui. Para a Alemanha, esse é um dos problemas. O Reino Unido, Itália, Polónia e pelo menos um pequeno, provavelmente os Países Baixos e alguém junto ao Ártico, têm de fazer parte desta nova coligação liderante. Portugal pode querer estar aqui, como parceiro júnior com frente Atlântica e relações únicas com o Brasil e África. É uma escolha que podemos fazer, mas não se faz só com discursos pós-coloniais ou para-coloniais.
Na Venezuela e no Irão, um dos maiores prejudicados da alteração do estado de coisas é Pequim. É, obviamente, um facto que Washington incluiu no seu planeamento estratégico. A China, também, certamente não ignora o sentido do que se está a passar. Se os Estados Unidos querem acelerar o conflito com a potência emergente, Xi Jinping não vai poder ser o parceiro passivo desta relação.
